"A Herança no Vaso de Conservas" Capítulo 14 O Contra-ataque Desesperado
Uma fera encurralada sempre luta até o fim. Após um breve colapso, Marcos iniciou um contra-ataque desesperado.
Sua estratégia era tão desprezível quanto ridícula: como não conseguia encontrar brechas na lei, tentou me subjugar através de uma chantagem moral.
As ligações que ele fez para os meus pais surtiram efeito. Na manhã seguinte, minha mãe ligou. Assim que atendi, fui bombardeada por questionamentos ríspidos.
— Clara! O que você está fazendo da sua vida? O Marcos me ligou chorando como uma criança! Ele disse que sabe que errou, disse que está gravemente doente... Por que você não consegue perdoá-lo? Um dia de casados vale cem dias de gratidão! Como você pode ser tão implacável?
A voz da minha mãe era aguda e estridente. Ouvi em silêncio, sem interrompê-la, até que ela despejasse tudo o que ouvira de Marcos.
— Mãe, a senhora terminou? — perguntei com a voz gélida. — Agora, escute o meu lado. Primeiro: eu e o Marcos vamos nos divorciar. Segundo: ele não está doente; ele teve pavor de ficar doente no futuro e, por isso, abandonou o pai agonizante e a mim. Terceiro: ele tinha outra mulher e transferiu nosso patrimônio comum para ela. Quarto: o caso já está com meus advogados. A senhora e o pai não devem se envolver, nem atender mais as ligações dele.
Falei tudo de uma vez, de forma clara e sem emoção. Do outro lado, houve um silêncio pesado.
Ela provavelmente não esperava que sua filha, sempre dócil, respondesse com tanta firmeza.
— Filha... ele realmente...? — Mãe — interrompi —, não quero que vocês se preocupem, mas não há margem para negociação. Só te pergunto uma coisa: se quem estivesse naquela cama de hospital, abandonada por ele, fosse eu... o que a senhora faria?
Houve um longo silêncio. Por fim, um suspiro exausto. — Entendi, minha filha. Cuide-se... e fique bem.
Desliguei sentindo um peso, mas sabia que Marcos não pararia por ali. Ele usaria métodos ainda mais extremos para me forçar a um encontro.
Enviei uma mensagem para a Dra. Fabiana contando sobre meus pais. Ela respondeu rápido:
"Previsível. Ele já comprou a passagem de volta e chega hoje à tarde. Prepare-se, ele deve te procurar. Não tenha contato direto e, se ele te assediar, chame a polícia imediatamente."
Ele estava voltando. Tão rápido.
Olhei para a mensagem sem grandes sobressaltos. O que tem que ser, será. Eu não poderia me esconder para sempre.
À tarde, conforme o combinado, fui ao centro de perícia de joias.
O perito era um senhor de cabelos brancos que usava óculos de leitura e agia com extrema cautela.
Ele observou o bracelete com uma lupa por um longo tempo e o submeteu a diversos instrumentos.
— Minha jovem, este bracelete é de jade "Gordura de Carneiro" de nível superior — ele levantou a cabeça, com os olhos brilhando de admiração. — A textura é quente, o brilho é oleoso e perfeito, sem qualquer impureza ou fissura. Peças com essa qualidade são raríssimas hoje em dia. Estimativa conservadora? Vale pelo menos sete dígitos.
Sete dígitos. Eu congelei. Nunca imaginei que o meu sogro tivesse me deixado uma herança tão valiosa.
Aquilo era mais do que um gesto de carinho; era uma garantia sólida que poderia mudar o resto da minha vida.
Saí do centro de perícia com um misto de sentimentos. Senti até um certo calafrio: se eu não tivesse voltado à velha casa, se não tivesse cavado sob aquele pote de conservas, este bracelete e a verdade estariam enterrados para sempre.
E eu talvez ainda estivesse chorando por aquele homem.
Enquanto esperava um táxi para voltar ao hotel, um vulto familiar e, ao mesmo tempo, estranho surgiu diante de mim. Era Marcos.
Ele estava magro, devastado. Olheiras profundas e a barba por fazer. Em poucos dias, parecia ter envelhecido dez anos.
Ele me encarava fixamente, com os olhos injetados de sangue. Aquele olhar não era de súplica; era uma obsessão quase psicótica.
— Clara, você finalmente aceitou me ver — sua voz estava assustadoramente rouca. Recuei um passo, mantendo distância. — Não tenho nada para falar com você.
— Não! Você tem! — Ele se exaltou, avançando para tentar segurar meu pulso. Esquivei-me na hora. — Marcos, controle-se! Estamos em um lugar público!
Meu aviso pareceu trazer um lampejo de razão a ele. Ele parou, mas seu olhar ainda parecia querer me devorar. — Clara, vamos conversar. Só cinco minutos. Vamos para casa e conversar lá, pode ser?
Para casa?
Que palavra irônica. — Eu não tenho mais casa — respondi. — Aquela casa foi destruída por você.
Isso pareceu atingi-lo em cheio. Sua expressão se contorceu. — Eu sei que errei! Eu juro que sei!
De repente, com um baque surdo, ele caiu de joelhos diante de mim.
No meio de uma rua movimentada, um homem se ajoelhava sem qualquer aviso.
Os pedestres começaram a lançar olhares curiosos e estranhados. Fiquei paralisada pela audácia daquele gesto.
— Clara, me perdoe, por favor! — Ele começou a chorar. Lágrimas e secreções escorriam pelo seu rosto, numa cena patética.
— Eu estava fora de mim! Eu tive tanto medo! Medo de acabar como a minha mãe, como o meu pai! Eu não deixei de te amar, eu só... eu só queria fugir da realidade! Me dê mais uma chance, vamos recomeçar, por favor!
Ele chorava enquanto se arrastava de joelhos em minha direção, tentando agarrar a barra do meu vestido.
Sua atuação era digna de um prêmio, capaz de comover qualquer um que não soubesse a verdade.
Mas, para mim, era apenas nauseante. Olhei para ele com desprezo. Olhei para o homem que virou minha vida do avesso e agora tentava comprar meu perdão com lágrimas e encenação.
— Marcos — comecei, com a voz fria como gelo.
— Guarde esse seu teatro de coitadinho. Você não está pedindo perdão por mim. Você está implorando para que eu não tire o seu dinheiro e o seu apartamento. Você não está se ajoelhando para mim; está se ajoelhando para o seu futuro, que em breve será um completo vazio.
Minhas palavras foram como uma faca rasgando sua máscara. O choro parou bruscamente. Ele levantou a cabeça e me encarou.
O arrependimento e a dor coreografados desapareceram em um segundo, dando lugar a um rancor venenoso.
— Clara, sua... — Você achou que eu teria o coração mole? — continuei, sem dar espaço para réplicas.
— Esqueceu de como o seu pai morreu? Onde você estava quando ele tossia sangue dia e noite, gritando de dor? Você estava em Goiânia, abraçado com sua namoradinha, curtindo a vida! Ele morreu pensando em você, sentindo-se culpado por você, chorando por você! E você? Você nem sequer quis vê-lo pela última vez! Marcos, você não merece ser chamado de ser humano!
Minha voz subia de tom, cada palavra mais severa que a anterior. Ele empalideceu, o corpo balançando como se fosse cair.
Olhei para ele sem qualquer prazer, sentindo apenas uma tristeza profunda. Por um homem como esse, eu sacrifiquei os melhores três anos da minha vida. Valeu a pena?
Não quis perder mais um segundo. Virei as costas para sair. — Clara! Pare agora!
Ele saltou do chão como uma fera enfurecida e avançou contra mim pelas costas. Eu já estava em guarda e me esquivei para o lado.
Ele passou direto, cambaleando e quase caindo.
— Você não vai embora! — ele rugiu, com o rosto desfigurado pelo ódio. — Você destruiu tudo o que eu tinha! Eu não vou deixar você sair ilesa!
Ele avançou de novo. Nesse exato momento, uma viatura de polícia surgiu com a sirene ligada e parou bruscamente diante de nós. Dois policiais desceram rapidamente e imobilizaram o Marcos frenético, um de cada lado.
Foi a Dra. Fabiana. Ela quem chamou a polícia.
Olhei para Marcos, pressionado contra o chão pelos oficiais, ainda gritando e lutando inutilmente.
Não senti medo, nem raiva. Apenas uma paz absoluta, como se a poeira finalmente tivesse baixado.
Acabou. O último vestígio de afeto, o último fio de conexão entre nós... naquele momento, rompeu-se para sempre.
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