"Nunca Mais Serei a Esposa Invisível" Capítulo 6
O mundo girou violentamente e seu corpo despencou escada abaixo.
Uma dor aguda e instantânea tomou conta de cada fibra de seu ser. Um líquido quente começou a escorrer de sua testa, embaçando sua visão.
Lá no topo da escada, as duas crianças observavam com sorrisos maliciosos nos rostos.
"Bem feito!" Alice exclamou, batendo palmas ritmicamente.
"Isso é por não nos dar o bolo!" Vitor zombou, fazendo uma careta de deboche.
Clarice tentou se erguer com dificuldade, sentindo o sangue escorrer pelo queixo e pingar no chão de madeira.
Ela olhava para aqueles dois pequenos monstros e não conseguia, de forma alguma, associá-los aos bebês que ela quase deu a própria vida para salvar na sala de parto, quando ambos estavam entre a vida e a morte.
Subitamente, a porta principal foi aberta.
"O que está acontecendo aqui?"
A voz profunda de Henrique ecoou pelo hall. Ele vinha acompanhado de Isabela. Ao se depararem com a cena, os três paralisaram.
"Papai!" As duas crianças mudaram de expressão instantaneamente. Elas correram para ele chorando e se jogaram em seus braços. "A mamãe jogou o bolo fora só para a gente não comer, e ainda disse que não nos quer mais! Buááá!"
Henrique fixou o olhar no bolo jogado no lixo e depois voltou-se para Clarice, que estava coberta de sangue. Ele franziu a testa com severidade. "Clarice, por que você insiste em descontar suas frustrações nas crianças?"
Sua voz era fria como o gelo. "Dizer algo assim para os seus próprios filhos... você se considera digna de ser chamada de mãe?"
Apoiando-se na parede, Clarice levantou-se lentamente. O sangue tingia o colarinho de sua blusa de um vermelho vivo.
Ela encarou Henrique e, de repente, soltou uma risada amarga.
"Aos seus olhos, quando foi que eu fui digna?" Sua voz soava rouca. "Você nunca me viu como nada além de uma ferramenta para carregar o seu sobrenome e dar continuidade à sua linhagem, não foi?"
As pupilas de Henrique se contraíram levemente.
"Já que a esposa que você sempre quis é a Isabela," Clarice limpou o sangue do rosto com as costas da mão, "e já que as crianças só querem que ela seja a mãe deles, então eu renuncio ao meu lugar. Que sejam felizes, vocês quatro."
O ar pareceu solidificar-se naquele instante.
A expressão de Henrique tornou-se extremamente sombria. Ele cravou os olhos em Clarice como se, pela primeira vez, estivesse realmente enxergando a mulher à sua frente.
"Clarice, não se esqueça," ele disse com uma voz baixa e cortante, "a união entre as famílias Henrique e Clarice foi uma aliança comercial. Nunca houve sentimento."
"O que você esperava que eu te desse? Amor?" Ele soltou um riso de escárnio. "Sinto muito, mas isso eu não posso te dar."
Clarice riu. Riu tanto que as lágrimas começaram a se misturar ao sangue em seu rosto.
Sim, ele tinha razão.
Ela fora estúpida, fora tola em acreditar que poderia atrair um deus para o mundo dos mortais.
Henrique de fato já havia descido de seu pedestal por alguém, mas esse alguém nunca foi ela.
Ela já deveria saber disso há muito tempo.
"Henrique, querido, chega..." Isabela interveio no momento exato, tocando o braço dele com delicadeza. "As crianças estão apavoradas. Vamos levá-las para o andar de cima."
Henrique lançou um último e profundo olhar para Clarice. Por fim, ele se virou, pegou uma criança em cada braço e saiu acompanhado de Isabela.
Clarice observou as costas deles enquanto se afastavam. O sangue continuava a pingar no chão, implacável.
Naquele momento, ela sentiu um arrependimento avassalador.
Arrependimento de ter se casado com Henrique, arrependimento de ter dado à luz aquelas duas crianças.
Nesta vida, ela jamais cometeria os mesmos erros.
De agora em diante, ela viveria apenas para si mesma.
Três dias depois, era o aniversário de Vitor.
A festa foi realizada no hotel mais luxuoso do centro da cidade.
Lustres de cristal refletiam luzes deslumbrantes e torres de champanhe brilhavam no centro do salão. Henrique, como de costume, fechou o andar inteiro para dar a Vitor uma celebração grandiosa.
Clarice estava parada em um canto, observando Vitor e Alice segurarem as mãos de Isabela, um de cada lado, como dois passarinhos alegres rodeando-a. As crianças grudaram em Isabela o tempo todo, ignorando deliberadamente a própria mãe biológica.
Henrique estava a poucos metros dali, segurando uma taça de champanhe com seus dedos longos. Seu olhar desviava constantemente para Isabela, com uma ternura que Clarice nunca conheceu.
"O Sr. Henrique é realmente um homem apaixonado. Depois de tantos anos, seus olhos ainda só brilham para a Srta. Isabela."
"Não é verdade? E as crianças saíram igualzinho ao pai, só têm olhos para a Isabela."
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