"Meu Pecado: Amar o Homem que me Criou" Capítulo 1
Após a morte de seu pai em um trágico acidente, Soraia tornou-se órfã.
Bernardo, o amigo de longa data de seu pai e uma figura influente da alta sociedade, decidiu adotá-la.
Ele era dez anos mais velho e pediu que ela o chamasse de Tio Bernardo.
Desde então, ele não mediu esforços para realizar cada um de seus desejos, transformando-a na jovem mais mimada e intocável de Porto Sul.
Tudo ruiu na noite de seu baile de dezoito anos. Ela roubou o terço budista dele e sentiu o toque gélido das contas deslizando por sua intimidade mais profunda; um arrepio que ela fantasiava ser o toque das mãos dele.
No segundo seguinte, a porta se escancarou. Ele viu tudo.
O choque nos olhos de Bernardo deu lugar a uma fúria avassaladora. Ele a repudiou com desprezo, acusando-a de profanar os laços de família e de ser perversa o suficiente para desejar o próprio homem que a criou.
No segundo seguinte, a porta se abriu e ele flagrou tudo. Bernardo ficou incrédulo e, em seguida, explodiu em fúria.
Ele a repreendeu por ignorar as leis da natureza e a moral, questionando como ela ousava desejar o próprio tio.
No dia seguinte, ele rasgou a carta de aceitação dela para a universidade e a enviou para o Instituto Santa Marina.
Era o lugar mais rígido da Capital Norte para "reeducação moral".
Ele ordenou que ela aprendesse com os professores o significado de decoro e integridade, e que só voltasse quando tivesse abandonado aqueles pensamentos impuros.
Contudo, logo no primeiro dia, jogaram mostarda em seus olhos.
No segundo dia, ela foi arrastada pelas escadarias por duas horas.
No terceiro dia, dez homens entraram em seu quarto…
——————————
Três anos depois, Bernardo finalmente foi buscá-la.
Soraia estava diante dos portões do Instituto Santa Marina, observando o familiar Maybach preto estacionar lentamente.
A porta se abriu e Bernardo desceu do banco do motorista, mantendo a mesma aura fria e aristocrática de sempre.
A diferença de três anos atrás era que, no banco do passageiro, havia uma mulher.
Ela usava um elegante vestido branco, com longos cabelos sobre os ombros e um sorriso gentil no rosto.
— Esta deve ser a Soraia, certo? Olá, sou Melissa, noiva do Bernardo. Pode me chamar de Irmã Mel.
Soraia assentiu com uma expressão apática, sua voz tão baixa que era quase inaudível:
— Olá, Irmã Mel.
Dito isso, ela se virou e sentou-se no banco de trás. Bernardo assumiu o volante e deu partida no carro com o rosto rígido.
— O que aprendeu nesses anos? Ainda nutre aqueles pensamentos?
Os dedos de Soraia tremeram levemente. Seu coração parecia estar sendo esmagado.
Ela se lembrou dos dias de choques elétricos, de ser arrastada e humilhada. Sua garganta parecia obstruída por uma pedra, tamanha era a dor que a impedia de falar.
Ela fechou os olhos com esforço e sussurrou:
— Não. Nunca mais.
Bernardo franziu o cenho. Uma emoção inexplicável surgiu em seu peito.
Aquela era exatamente a resposta que ele queria ouvir, mas por que sentia aquele desconforto?
— É bom que saiba.
Soraia deu um sorriso amargo e baixou a cabeça, permanecendo em silêncio.
O carro acelerou e parou diante da mansão da família Peixoto. Soraia desceu e, por hábito, caminhou em direção ao seu antigo quarto.
No entanto, ao abrir a porta, percebeu que o lugar havia sido transformado em um gatil. Melissa parou atrás dela com um olhar de desculpas:
— Sinto muito, Soraia. Como eu e seu Tio Bernardo vamos nos casar em breve, mudei-me para cá recentemente. Costumo resgatar animais de rua e, como seu quarto tem a melhor iluminação, coloquei os gatos aqui. Vou pedir aos criados que retirem tudo agora mesmo.
Soraia balançou a cabeça.
— Não é necessário, Irmã Mel. Você é a dona desta casa agora. Não importa onde eu fique.
Após falar, ela se dirigiu ao quarto de hóspedes, mostrando-se estranhamente obediente.
Durante o jantar, Bernardo foi extremamente atencioso com Melissa. Ele servia a comida para ela e falava em tom suave, com um olhar repleto de ternura.
Soraia manteve os olhos baixos durante todo o tempo, concentrada apenas em sua refeição, como se nada daquilo lhe dissesse respeito. Melissa a observou por um momento e disse docemente:
— Soraia, não coma apenas arroz. Coma os acompanhamentos.
Como um reflexo condicionado às ordens, Soraia começou a colocar a comida na boca mecanicamente, de forma frenética.
Mesmo que a comida estivesse quente o suficiente para queimar sua garganta, ela continuava a engolir com apatia.
Melissa sorriu para Bernardo:
— Você disse que a Soraia era difícil de lidar, mas eu a acho adorável. Veja como ela é obediente.
Bernardo lançou um olhar para a jovem. Ele não esperava que ela estivesse tão mudada.
Desde que voltou, ela não demonstrou nenhum sinal de rebeldia, o que o fez assentir satisfeito.
— Parece que o tempo no instituto realmente lhe fez bem. De agora em diante, comporte-se assim e dê-se bem com a Melissa.
Soraia terminou de comer e levantou-se.
— Estou satisfeita. Vou para o meu quarto.
Ao fechar a porta do quarto, ela finalmente respirou aliviada. Retirou uma pequena caixa do bolso, onde guardava o dinheiro que economizara durante os anos no Instituto Santa Marina.
Ela se lembrou das palavras de Bernardo sobre conviver bem com Melissa, mas seus planos eram outros: comprar uma passagem de avião e desaparecer da vida dele para sempre.
Ao contar as notas, percebeu que tinha o suficiente para um voo econômico dali a nove dias.
Com as mãos trêmulas, ela confirmou a compra pelo celular. No momento em que a reserva foi concluída, ela fechou os olhos e deixou as lágrimas correrem — um misto de alívio e desespero.
Após o banho, ela se deitou na cama e forçou-se a fechar os olhos, seguindo a rotina do instituto.
Mas, talvez por estar em um ambiente familiar, a imagem de Bernardo não parava de surgir em sua mente.
Ela ainda ouvia a voz fria dele ecoando:
"Soraia, você é um absurdo! Como ousa desejar seu próprio tio?"
As memórias do passado se confundiam em sua mente.
Quando estava prestes a pegar no sono, a porta se abriu bruscamente.
— Por que foi dormir tão cedo? Esqueceu de tomar seu leite — disse um homem, franzindo a testa.
Ao ouvir a voz masculina, Soraia arregalou os olhos e sentou-se num salto, por puro instinto.
Por um segundo, esqueceu que estava em casa e pensou ainda estar no Instituto Santa Marina.
Lá, sempre que um homem entrava em seu quarto, ela precisava imediatamente abrir o cinto dele e servi-lo.
Mesmo que estivesse em seu período menstrual, era obrigada a ajoelhar-se, aceitar a sujeira deles e dizer "obrigada pela graça".
Qualquer hesitação resultava em um sofrimento pior que a morte.
Tomada pelo pânico, ela se jogou ao chão, ajoelhando-se aos pés dele enquanto chorava e implorava:
— Por favor, não me bata! Eu vou servir você agora mesmo!
No momento em que ela estava prestes a abrir o cinto, as luzes se acenderam por completo.
Com a visão embaçada pelas lágrimas, ela viu Bernardo parado à sua frente segurando um copo de leite, com um olhar de choque absoluto.
— Soraia, o que você pensa que está fazendo?!
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