"Após renascer, usei a razão para proteger a minha filha." Capítulo 17
Erika respondeu uma a uma. Quando não tinha certeza de algum detalhe, dizia com honestidade: “não me lembro” ou “na hora eu estava tão nervosa que não consegui ver direito”. Essa franqueza, ao contrário, tornava seu depoimento ainda mais crível.
“Você mencionou que gravou áudio e vídeo. Além do que está no celular, existe alguma outra cópia de segurança?” perguntou o comandante Costa.
“Não. Mas a ligação que fiz para a polícia deve ter sido gravada, certo?”
“A polícia vai requisitar os registros da chamada.” Costa assentiu, fez uma anotação no depoimento e então se voltou para Lili. “Liliana, agora quero que você conte para o tio o que aconteceu hoje à tarde, quando você estava sozinha em casa.”
A parte da oitiva da criança foi conduzida principalmente pela policial Sofia. Sua voz era mais suave, e as perguntas mais específicas e cuidadosas, evitando causar um novo trauma.
O relato de Lili foi mais curto que o de Erika, e muito mais filtrado pelo olhar e pela sensibilidade de uma criança: a mãe avisou que ia sair, como de fato tinha dito antes de sair; ela recebeu uma mensagem de Everton dizendo que estava chegando e ficou com medo; enviou uma mensagem pedindo ajuda à mãe; trancou a porta do quarto; ouviu Everton usar a chave para entrar, ouviu sua voz do lado de fora da porta, uma voz “nojenta e assustadora”; ouviu as batidas na porta, ficou apavorada, empurrou uma cadeira para trás da porta, correu para fechar melhor a janela e usou uma caixa de guardar coisas para bloquear; depois ouviu a mãe brigando e lutando com Everton do lado de fora, ouviu a mãe gritar, ouviu o som estranho do apito, ficou ainda mais assustada e então subiu na janela e gritou por socorro; por fim, ouviu um estrondo e a voz dos policiais.
“O tio Everton tocou em você? Mesmo que tenha sido pela fresta da porta ou da janela?” perguntou Sofia, baixinho.
Lili balançou a cabeça com força. Seu rostinho empalideceu outra vez. “Não! A porta ficou trancada o tempo todo! E a janela… eu fechei bem!”
“Ele disse por que queria que você abrisse? O que exatamente ele falou?”
Os lábios de Lili tremeram. Ela abaixou a cabeça, e a voz saiu ainda menor. “Ele disse… disse que trouxe presente e chocolate… falou que a mamãe mandou ele vir brincar comigo… depois… depois começou a xingar, disse que eu não obedecia, que ele ia ficar bravo… e também… e também falou umas coisas estranhas… eu… eu não lembro…”
“Que coisas estranhas?” Sofia insistiu com delicadeza.
As lágrimas voltaram a cair. Lili ergueu os olhos para Erika, pedindo ajuda. O coração de Erika apertou, mas ela sabia que certas palavras precisavam vir da própria menina. Eram a prova mais direta. Ela acariciou de leve as costas da filha e disse, em voz baixa: “Está tudo bem, meu amor. Conta para a policial. Se você falar, aquele homem mau nunca mais vai machucar ninguém.”
Lili fungou e, entre soluços, começou a falar, devagar, em frases partidas, quase num sussurro: “Ele disse… ‘abre a porta, deixa o tio te ver’… ‘o tio gosta mais da Lili’… ‘vamos brincar de um jogo’… e também… também falou de… ‘bumbum’… e… ‘passar a mão’…” As últimas palavras saíram quase sem som. Assim que terminou, enfiou o rosto no peito de Erika e os ombros voltaram a tremer.
A sala de depoimento ficou em silêncio. Só se ouvia o arranhar da caneta do escrivão no papel e o choro baixo e contido de Lili.
Costa e Sofia trocaram um olhar. Um homem adulto dizendo aquilo a uma menina de onze anos, somado à invasão da casa e às tentativas violentas de entrar no quarto trancado, deixava suas intenções expostas de forma incontestável.
“Liliana, você foi muito corajosa. Fez tudo certo.” Sofia falou com doçura. “Você se protegeu. E isso que você contou é muito importante. Obrigada por nos dizer.”
A tomada formal de depoimentos durou quase duas horas. Quando terminou, a noite já tinha caído completamente. Erika e Lili assinaram as folhas grossas do depoimento e deixaram suas digitais. O comandante Costa recolheu os documentos.
“O depoimento está concluído. Vocês podem ir. Mantenham o telefone disponível nos próximos dias, porque o Ministério Público pode entrar em contato. O celular continua retido como prova e, quando a investigação avançar, vocês serão avisadas sobre a devolução.” Costa se levantou. “E mais uma coisa. Dada a ameaça feita pelo suspeito e a possibilidade de ele ainda ter acesso às chaves do apartamento, não recomendamos que vocês voltem a morar na Rua das Acácias por enquanto. Existe algum parente ou amigo com quem possam ficar?”
Erika pensou imediatamente na irmã, Maria. Mas Maria morava em outra cidade e… ela não queria levar perigo para a irmã, nem expor Lili, depois de tudo aquilo, às perguntas, à curiosidade e aos olhares tortos dos parentes.
“Vamos ficar alguns dias em um hotel e depois procurar outro lugar para morar.” respondeu Erika, com uma calma firme. Ela ainda tinha alguma reserva. Não podia perder o emprego na fábrica, mas mudar de casa era inegociável.
Costa lançou um olhar para ela. Não comentou nada, apenas assentiu. “Sofia, acompanhe a senhora Perez e Liliana até a saída e ajude-as a chamar um carro.”
Quando saíram da delegacia, o vento da noite já estava frio. O fluxo de carros era ralo, e as luzes de néon se refletiam no asfalto úmido em manchas trêmulas. Sofia conseguiu um táxi para elas e anotou a placa.
“Senhora Perez,” disse Sofia em voz baixa, antes de fechar a porta do carro, “você fez a coisa certa. De verdade. Cuide da sua filha… e também cuide de você.” Seu olhar pousou por um instante nos hematomas do braço e do pescoço de Erika.
Erika sorriu em agradecimento. Era um sorriso cansado, mas já não carregava aquele vazio desesperado que, em outra vida, parecia ter tomado conta dela depois da liberdade.
O táxi se afastou da delegacia. Lili, encostada no corpo da mãe, logo adormeceu, vencida pelo esgotamento físico e emocional. No rostinho ainda restavam marcas secas de lágrimas. Erika a abraçou de leve e ficou olhando pela janela, vendo a cidade noturna escorrer para trás — ruas conhecidas, lojas, fachadas iluminadas. Tudo aquilo lhe parecia, ao mesmo tempo, familiar e estranho, mas também atravessado por uma esperança nova, ainda fraca, ainda tímida.
Elas se hospedaram num hotel simples no centro. O quarto era pequeno, havia um leve cheiro de mofo no ar, mas estava limpo. Erika molhou uma toalha com água morna e limpou o rosto e as mãos de Lili com cuidado, depois a acomodou na cama. Lili dormia de forma inquieta. Às vezes se mexia de repente e murmurava coisas desconexas como “não… vai embora…”. Nessas horas, Erika imediatamente pousava a mão em suas costas e cantarolava baixinho uma velha canção de ninar dos tempos em que Lili ainda era um bebê.
Só muito tarde da noite a respiração da menina se tornou profunda e regular.
Erika, porém, continuava completamente sem sono. Sentada numa cadeira dura ao lado da cama, observava o rosto adormecido da filha sob a luz amarela da luminária. O braço e o pescoço ainda doíam em pulsos intermitentes, lembrando a violência daquela tarde. Mas mais forte do que a dor física eram as imagens que não paravam de girar em sua cabeça: o som da chave entrando na fechadura, a voz viscosa de Everton, os golpes contra a porta, a falta de ar, a entrada da polícia, o grito desesperado de Lili pedindo socorro e, depois, aquele corpo pequeno e trêmulo se jogando em seus braços.
Ela tinha conseguido.
De um jeito completamente diferente do que acontecera na outra vida.
Sem matar.
Sem sangue.
Sem se transformar em monstro.
Dessa vez, ela segurou a arma certa: a lei, a prova, a razão. E atingiu o alvo.
Uma onda imensa, feita de cansaço, alívio e uma exaustão quase sem nome, caiu sobre ela. Erika enterrou o rosto nas mãos, e seus ombros começaram a tremer em silêncio. Não havia som, mas lágrimas quentes escorriam entre seus dedos, molhando as pequenas feridas que ficavam nas palmas por causa da luta, fazendo arder de leve.
Desta vez, suas lágrimas já não eram veneno de desespero.
Eram água.
Água limpa o bastante para começar a levar embora parte do ferrugem e do sangue do passado.
Depois de um longo tempo, ela ergueu o rosto e enxugou as lágrimas. Seu olhar caiu sobre o criado-mudo, onde estava o recibo da polícia pela retenção do celular como prova. Uma folha fina de papel, mas que carregava a arma mais poderosa para condenar Everton.
Mesmo assim, as últimas palavras do comandante Costa, e também o grito de Everton sendo levado — “meu tio é advogado” — surgiram como duas pequenas nuvens escuras sobre a primeira fresta de luz que se abria dentro dela.
As provas eram sólidas.
Mas o sistema de justiça nunca foi apenas a simples soma das provas.
Ela não sabia se, naquele lado obscuro do embate jurídico que nunca chegara a tocar na outra vida, ainda havia outros espinhos à espera.
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