"Sua Cópia Perfeita (Mas Eu Não Sou Ela)" Capítulo 1
Capítulo 1
Aos vinte anos, Aurora Nogueira se casou com Ricardo Vasconcelos, um amigo próximo de seu pai, alguém muito mais velho que ela.
Ele tinha oito anos a mais — um homem conhecido no meio por sua frieza quase impenetrável, impiedoso nos negócios e completamente indiferente às mulheres. Mas, com ela… era diferente. Era doce de um jeito que ninguém acreditaria.
Bastava Aurora comentar casualmente: “Aquele colar é bonito”, e no dia seguinte ele mandava alguém entregar uma joia que valia milhões em suas mãos.
Quando ela se encolhia na cama por causa das cólicas menstruais, ele largava contratos bilionários só para ir para casa preparar chá de gengibre com açúcar mascavo, soprando cada colher antes de levá-la à boca dela, como se estivesse cuidando de algo precioso demais.
E, nos momentos mais íntimos, ele segurava sua cintura com firmeza, a voz rouca sussurrando contra seu ouvido:
— Boa garota… você me vicia.
Até mesmo todos os seus perfis sociais tinham o mesmo nome:
“Para Alice.”
Aurora sempre acreditou que fosse por causa do dia em que se conheceram — quando ela, sentada ao piano, tocou aquela música para ele.
Até aquele dia.
O dia em que ela encontrou um álbum antigo, escondido no escritório dele.
Todas as fotos eram da mesma garota.
Uma jovem que se parecia com ela em setenta por cento — sorrindo diante de um piano.
No verso das fotos, estava escrito:
“Para Alice, meu eterno amor — Lívia.”
…
Depois de descobrir a verdade, Aurora fez apenas duas coisas.
A primeira: foi ao hospital interromper a gravidez de cinco meses.
O bebê já chutava dentro dela.
Deitada na mesa de cirurgia, ela mordeu os lábios até quase sangrar, recusando-se a chorar. Mas quando a enfermeira perguntou, com suavidade:
— Quer ver o bebê?
Aurora desmoronou. Sacudiu a cabeça, desesperadamente, recusando.
A segunda coisa: redigiu um acordo de divórcio.
Então, ligou para Ricardo.
Antes, ele sempre atendia na mesma hora. E, com aquela voz suave que a fazia se perder, perguntava:
— O que foi, meu amor?
Mas, dessa vez…
Ela ligou vinte e três vezes.
Só então ele atendeu.
Do outro lado da linha, havia barulho — risadas, vozes misturadas — e, logo depois, um dos amigos dele falou em tom zombeteiro:
— Quer saber o poder do primeiro amor? Lívia acabou de voltar ao país, e o Ricardo já largou em casa aquela garotinha grávida de cinco meses.
— Claro… afinal, ela nunca passou de uma substituta. Você não viu o quanto ele amava a Lívia naquela época? Quando terminaram, ele quase bebeu até morrer. E nesses anos todos nunca esqueceu dela… até trouxe outra menina pra casa só pra ocupar o lugar.
— E a coitada nem desconfia de nada, vive grudada nele. Uma vez eu vi os dois se beijando… ela parecia tão dependente que até me deu inveja. Se eu tivesse uma garota tão doce assim, já teria esquecido a Lívia há muito tempo.
— Pois é… o Ricardo pode parecer frio, mas no fundo é um romântico incurável. Ele só ama a Lívia. Olha só — ela reclamou que os saltos machucavam os pés, e ele já carregou ela no colo pra comprar um sapato baixo…
Aurora segurava o celular com força.
As lágrimas caíam silenciosamente.
De repente, o outro lado ficou em silêncio.
— Quem atendeu meu telefone? — a voz de Ricardo soou, fria.
— Ah? Não sei… talvez tenha apertado sem querer…
Passos.
Logo, o barulho desapareceu.
E então, aquela voz que sempre a fazia se perder voltou — baixa, suave, quase carinhosa demais:
— O que foi, meu amor? Está com medo da tempestade e não consegue dormir?
— O marido tem um compromisso hoje… volto mais tarde pra ficar com você e com o bebê, pode ser?
Aurora respirou fundo.
— Eu estou ligando porque quero que você assine o di—
Antes que pudesse terminar, uma voz feminina surgiu ao fundo:
— Ricardo… meu pé está doendo…
Ele ficou em silêncio por um instante.
Depois disse, apressado:
— Seja boazinha, vá dormir primeiro. Eu volto mais tarde pra ficar com você.
E desligou.
Aurora riu.
Secou todas as lágrimas.
Ergueu os olhos para a mesa à sua frente.
Ali estavam dois “presentes” — ambos destinados a Ricardo.
Um acordo de divórcio.
E uma caixa de presente.
Dentro dela… estava o bebê que ela havia perdido.
Quem trai um coração sincero… merece engolir mil agulhas.
Ela podia ser jovem.
Mas não suportava ser enganada assim.
Quem a enganasse… ela não queria.
Aurora Nogueira sabia amar.
E também sabia partir.
Depois de um tempo que ela mesma não soube medir, levantou-se.
Colocou a caixa com o bebê dentro da geladeira.
Mas, naquele instante—
O som da porta da mansão se abriu.
— Meu amor, ainda não dormiu? — Ricardo tirou o paletó ao entrar, a gravata solta no pescoço. — O que está procurando na geladeira? Está com fome?
Aurora não respondeu.
Apenas olhou para ele, em silêncio.
Ele estranhou aquela frieza incomum. Então, tirou de trás das costas uma caixa delicada de comida, o olhar suave:
— Dei a volta na cidade inteira pra comprar isso. Você não tem desejado isso ultimamente?
Ele abriu as embalagens, colocando os doces cuidadosamente sobre a mesa.
Eram exatamente as comidas que ela mais gostava nos últimos meses de gravidez.
Se fosse antes…
Ela já teria corrido até ele, beijando-o sem parar.
Mas agora…
Tudo aquilo parecia apenas uma ironia cruel.
— Por que está aí parada? O bebê está te incomodando de novo?
Enquanto falava, ele estendeu a mão para tocar a barriga dela.
Aurora o impediu.
E entregou um documento.
— Assine.
Ele ficou surpreso por um instante.
Quando estava prestes a abrir, o celular tocou.
Aurora viu o nome na tela.
Lívia.
Assim que atendeu, não se sabia o que foi dito do outro lado, mas a expressão dele mudou.
Sem nem olhar o documento…
Ele assinou.
Pegou as chaves do carro e se virou para sair.
— Meu amor, surgiu um imprevisto urgente. Vá dormir cedo.
Já na porta, ainda completou com ternura:
— Se quiser comprar alguma coisa, compre direto. Não precisa mais me pedir assinatura. Somos marido e mulher… o que é meu é seu.
Aurora apertou o acordo de divórcio já assinado em suas mãos.
E sorriu levemente.
— Ricardo Vasconcelos…
— muito em breve… nós não seremos mais marido e mulher.
Naquela mesma noite, Aurora teve um sonho longo… longo demais.
No sonho, ela voltava ao primeiro encontro com Ricardo.
Ela tinha dezoito anos e havia ido com o pai a um jantar da família Vasconcelos.
Ele estava ao lado do piano, vestindo um terno preto impecável. Segurava uma taça de champanhe com dedos elegantes, o rosto belo como uma pintura.
Foi amor à primeira vista.
Depois, tomada por coragem, ela roubou um beijo dele.
Ele se surpreendeu por um instante… e então sorriu, baixo:
— Garotinha… não é assim que se beija.
No instante seguinte, ele segurou a nuca dela e a ensinou o que era um beijo de verdade.
Foi um beijo longo… tão longo que ela quase perdeu o fôlego.
Tão longo que, mesmo agora, ao lembrar, parecia apenas um sonho bonito demais para ser real.
Quando acordou, o travesseiro já estava encharcado.
O dia havia amanhecido.
Ela levou um bom tempo para se recompor antes de pegar o celular e ligar para o pai.
— Pai… eu me divorciei — sua voz estava rouca. — Quando sair o documento oficial, vou para o exterior ficar com vocês.
Do outro lado, a voz de Carlos Nogueira se elevou imediatamente:
— Foi o Ricardo que te fez sofrer?!
— Não… — Aurora olhou para o céu que clareava pela janela. — Só… deixou de amar.
Na verdade…
Era Ricardo quem nunca a amou.
E ela… também não o amaria mais.
Mas essas palavras ela não disse.
Engoliu-as como um pedaço de vidro quebrado, deixando que rasgassem seu coração por dentro.
Depois de desligar, uma solicitação de amizade apareceu no WhatsApp.
Aurora, quase sem pensar, aceitou.
Logo em seguida, recebeu um vídeo.
Na imagem, Ricardo estava dormindo no sofá, a testa levemente franzida, murmurando um nome em voz baixa:
— Lívia…
Depois do vídeo, veio uma longa mensagem:
«Sou Lívia Monteiro, o primeiro amor do Ricardo. Não imaginei que, depois de tantos anos, mesmo casado, ele ainda não tivesse me esquecido. Quando voltei ao país hoje, descobri que ele ainda tem tatuado no pulso o apelido que eu lhe dava. Todas as nossas fotos e os diários que ele escreveu continuam intactos. Veja… até nos sonhos ele chama meu nome. Deve estar sonhando com o nosso passado — afinal, foi o primeiro amor mais inesquecível da vida dele.»
Aurora leu tudo.
Seu coração já não doía… apenas estava anestesiado.
Ela respondeu apenas uma frase:
«O que você quer?»
Demorou bastante até que a resposta viesse:
«Nada demais. Só quero recuperar o que é meu. Ele está prestes a acordar… acredita se eu disser que, se eu disser que tive um pesadelo, ele vai passar cinco dias ao meu lado sem nem te ligar uma vez?»
Aurora não respondeu.
Dez minutos depois, a mensagem de Ricardo chegou:
«Meu amor, surgiu um projeto urgente. Vou viajar por cinco dias. Deixei meu secretário com você — qualquer coisa, pode falar com ele. Cuide bem de você e do bebê.»
Aurora ficou olhando para a tela.
De repente, riu.
E, enquanto ria, as lágrimas caíam sobre o celular.
Nos cinco dias seguintes…
Ricardo realmente não deu sinal algum.
Mas Lívia, sim.
Mensagens sem parar.
Fotos dele caminhando com ela na praia…
levando-a para ver o pôr do sol no alto da montanha…
dirigindo com ela pelas estradas do interior…
Lívia escreveu:
«Esses são os lugares onde costumávamos vir quando namorávamos.»
Aurora viu tudo.
Cada detalhe.
E então se lembrou…
Ricardo também já a levara a esses mesmos lugares.
Na época, ela achava aquilo romântico.
Agora entendia.
Ele apenas revisitava memórias antigas…
usando ela como substituta.
Na tarde do quinto dia, Aurora começou a arrumar suas coisas.
As joias…
as bolsas…
as roupas que ele havia lhe dado…
Tudo o que tinha relação com ele foi colocado em caixas e levado para o depósito.
Quando Ricardo voltou, cansado da viagem, encontrou metade do closet vazio.
Ele ficou visivelmente surpreso:
— Meu amor… o que é isso?
Aurora nem levantou a cabeça:
— Nada. Só joguei fora algumas coisas inúteis.
Ele não pensou muito sobre isso.
Apenas sorriu e lhe entregou um presente — um conjunto de livros ilustrados de edição limitada.
No mês anterior, ela havia comentado casualmente que queria colecioná-los.
Ele lembrara.
— Meu amor… — ele a puxou naturalmente para os braços, a mão pousando sobre sua barriga — o enjoo melhorou? Amanhã é o dia do exame, eu vou com você.
— Não precisa. — Aurora se soltou dele. — Não precisa mais.
Ricardo finalmente percebeu que algo estava errado:
— O que quer dizer com “não precisa mais”? Está se sentindo mal?
Uma das empregadas falou:
— Senhora quase não comeu nesses dias, não tem apetite…
Ricardo imediatamente afrouxou a gravata:
— Vou ao mercado comprar ingredientes. Faço algo que você goste. Seja boazinha e coma um pouco, tá?
Antes de sair, ainda disse às empregadas:
— Cuidem bem dela. Não deixem que ela se machuque.
As empregadas cochichavam, admiradas:
— O senhor é tão bom com a senhora…
— Marido tem que ser assim, mais velho, sabe cuidar…
Aurora ouviu tudo em silêncio.
Um leve sorriso irônico passou por seus olhos.
Um dia…
Ela também acreditou que tinha encontrado o amor mais perfeito do mundo.
Agora sabia.
Era apenas um jogo cuidadosamente planejado…
onde ela nunca passou de substituta.
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