"O Amor Que Eu Deveria Ter Deixado Pra Trás" Capítulo 2
Quando acordei novamente, Lucas estava sentado à minha frente, com as mãos entrelaçadas.
O rosto dele estava pálido. A voz, calma… mas carregada de uma tristeza quase implorante:
— Lena… você pode me perdoar… pelo menos por causa do nosso filho?
Franzi o cenho e afastei a mão dele com frieza:
— Não encosta em mim.
O ambiente ficou pesado.
Lucas abaixou o olhar, claramente abatido:
— Lena… por favor… não faz isso comigo…
— Me desculpa… eu errei… eu prometo que nunca mais vou ter contato com ela…
Cada palavra que saía da boca dele me dava nojo.
Perdi o controle e gritei:
— SOME! Eu não quero te ver!
Comecei a socar o peito dele repetidamente. Lucas segurou meus pulsos, e as lágrimas que eu segurava finalmente desabaram.
— Lena… eu errei… não chora…
— Eu vou embora… eu vou…
Depois que ele saiu, levei a mão ao ventre e olhei pela janela.
— Meu bebê… me perdoa… me perdoa por não poder te trazer ao mundo…
Antes de receber alta, marquei o procedimento para interromper a gravidez.
Quando Lucas descobriu, foi a primeira vez que ele realmente perdeu o controle.
Foi a pior discussão que já tivemos.
Os olhos dele estavam frios, cortantes:
— Helena, com que direito você decide tirar o meu filho?
Eu ignorei completamente.
E segui com a enfermeira para a sala de cirurgia.
Lucas me puxou pelo braço, os olhos vermelhos de raiva:
— Já que você me odeia tanto… por que aceitou casar comigo naquela época?!
Olhei para o ódio nos olhos dele…
E apenas o empurrei.
No momento em que me virei, uma lágrima caiu no dorso da mão dele.
Ele esqueceu…
Que foi ele quem insistiu, implorou… até eu aceitar aquele casamento.
No fim, eu fiz o procedimento.
Quando meus pais descobriram, me deram uma bronca terrível.
Se eles soubessem que o genro que criaram como filho me traiu…
Ainda me culpariam?
Depois disso, eu saí do apartamento onde morávamos.
Aluguei um lugar no centro da cidade.
Quando enviei os papéis do divórcio, Lucas me ligou.
Disse que, se eu o odiasse… tudo bem.
Se eu não quisesse mais viver com ele… tudo bem também.
Mas que eu podia esquecer.
Ele nunca assinaria o divórcio.
Com o tempo… eu também deixei de insistir.
Que fosse então assim… um impasse eterno.
De qualquer forma, dois anos depois, eu ainda poderia pedir o divórcio judicialmente.
Para me animar, Diego abriu comigo uma cafeteria.
No dia da inauguração, Lucas ficou parado do outro lado da rua, com os punhos cerrados.
Esperou até o último cliente ir embora…
E então entrou.
A rua já estava quase vazia.
Ele arregaçou as mangas, irritado, e se sentou:
— Quero um café.
Fingi que não ouvi.
Continuei limpando a mesa.
— Helena… você realmente não tem dignidade nenhuma.
Parei o que estava fazendo e olhei para ele:
— Some.
Lucas se levantou e veio até mim. Com seus mais de um metro e oitenta, se inclinou com agressividade:
— Você quer se divorciar por causa do Diego, não é?
Apertei o pano na mão e joguei com força:
— Lucas… foi você quem me traiu.
Diego saiu da cozinha ao ouvir a discussão, ainda com o avental:
— Lena… o que aconteceu?
Nós dois nos viramos ao mesmo tempo.
Diego ficou um pouco constrangido:
— Lucas… você veio.
Ao vê-lo, toda a raiva contida de Lucas explodiu.
Ele avançou, agarrou Diego pela gola e deu um soco direto no rosto dele.
— Lucas, para!
Mas ele não ouviu.
Derrubou Diego no chão e começou a bater nele com violência.
Eu me coloquei na frente de Diego, encarando Lucas friamente:
— Se você bater mais uma vez nele… eu chamo a polícia.
A mão de Lucas, suspensa no ar, acabou descendo com força no chão.
Ele apontou para mim com os dedos sangrando:
— Helena… você é mesmo ridícula! Esqueceu o que ele fez com você no passado?!
Como eu poderia esquecer?
Só que… o tempo já tinha suavizado aquela dor.
E ele também já tinha pagado pelo que fez.
Olhei para Diego, com a perna debilitada, e disse friamente:
— Lucas… e você? Não é igualmente desprezível?
— Você também está sujo… não está?
Lucas ficou imóvel.
A raiva em seu rosto foi substituída por culpa… e arrependimento.
Ajudei Diego a se sentar na cadeira.
E deixei um último aviso para Lucas:
— Você sabe… eu tenho obsessão por limpeza.
— E a coisa que eu mais não suporto… é ver algo que amo ser contaminado.
Lucas se agachou, apertando os punhos, e disse em voz baixa:
— Me desculpa… eu te decepcionei.
Por vários dias seguidos, Lucas ficou do outro lado da rua… apenas observando.
Já Marina, que estava sendo ignorada por ele…
Veio me procurar.
Ela era jovem, bonita… e tinha uma confiança que eu já não tinha mais.
Sem rodeios, jogou um exame de gravidez sobre a mesa:
— Srta. Helena… estou grávida. Espero que você possa nos deixar ficar juntos.
Olhei de relance para o papel:
— Você devia falar isso pra ele. Não pra mim.
— Mas se você não aceitar o divórcio… não adianta.
Soltei uma risada leve, fria:
— Ele não disse que te ama mais que tudo?
— O que foi, Marina? Está insegura?
Ela sorriu… mas havia desprezo em sua voz:
— Helena… você acha mesmo que o Lucas não quer se divorciar?
— Ele só sente pena de você.
Minha expressão escureceu.
Levantei e fiz um gesto indicando a porta:
— Desculpa, Marina. Eu não tenho tempo pra brincar de gato e rato com você.
— Quer café, fique. Não quer… pode ir embora. Eu tenho trabalho.
Ela manteve o sorriso.
Mas, ao chegar na porta… voltou.
— Ah, e o Lucas disse que você já está “suja” há muito tempo…
— Que só ficou com você por causa dos seus pais.
— E que só de imaginar você sendo tocada por outros… já dá nojo nele.
Aquilo foi a gota d’água.
Levantei a mão… e dei um tapa forte no rosto dela.
Nesse momento, a porta se abriu.
Lucas entrou apressado:
— Marina! Você está bem?
Os olhos dela estavam marejados. Ela olhou para ele com inocência:
— Lucas… não briga com a Srta. Helena… a culpa é minha…
— Eu nem sabia que essa era a loja dela… é normal ela não me querer aqui…
A expressão de Lucas mudou drasticamente.
Quando ele olhou para mim, havia frieza… e irritação:
— Helena, eu já disse. Se tiver algo contra mim, venha direto pra mim.
— A Marina é inocente.
—
PÁ!
O som do tapa ecoou.
Ele não se moveu.
Nem tentou desviar.
Recebeu o golpe completamente.
A marca vermelha surgiu rapidamente em seu rosto pálido.
— Lucas… você está bem?
Marina tentou me bater, mas ele segurou o pulso dela.
— Lucas, você…
Ele nem olhou para ela.
Seus olhos estavam fixos em mim:
— Já se sentiu melhor?
Eu bati nele enquanto chorava:
— Não!
Marina se soltou e me empurrou com força.
Lucas, instintivamente, a afastou e se agachou para me ajudar.
— Aaah… aaah…
O grito de Marina chamou atenção de todos.
Sangue escorria por entre suas pernas, formando uma poça no chão.
Lucas ficou paralisado:
— Marina… o que é isso…
Ela levantou a mão, manchada de sangue:
— Lucas… o bebê… salva o nosso bebê…
Ele a encarou, incrédulo.
Nos braços dele, ela chorava desesperada:
— O bebê… salva o bebê…
Só então Lucas entrou em pânico.
Sem esperar por ambulância, ele a pegou no colo e saiu correndo.
Eu fiquei ali…
Olhando para as costas dele se afastando.
Apertei os punhos com tanta força que minhas unhas cravaram na pele.
Mas… eu não sentia dor alguma.
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