"Depois de Tudo, Eu Renasci" Capítulo 5
Já passava da madrugada quando Clara Azevedo voltou para casa, arrastando o corpo exausto.
Assim que acendeu a luz, o celular vibrou algumas vezes.
Era uma mensagem de Isabela Montenegro.
— Você anda curtindo todos os meus stories… então já deve saber que eu e o Leonardo registramos nosso casamento, não é? Ele até disse que vai me dar um casamento nas Maldivas. Eu vi o projeto… vai ser grandioso. Cada detalhe foi algo que imaginamos quando éramos jovens. Não pensei que, depois de tantos anos, ele ainda lembrasse de tudo.
— Ah, e também tenho que te agradecer. Se não fosse por você, os olhos dele não teriam voltado a enxergar. De verdade… obrigada por cuidar do meu marido durante esses sete anos.
Diante daquele deboche descarado—
Clara já não tinha nem forças para sentir raiva.
Voltou para o quarto, deitou-se… e adormeceu profundamente.
Naquela noite, Leonardo ainda não voltou.
Apenas enviou uma mensagem:
【Clara, ainda tenho algumas coisas para resolver. Você está muito machucada? Se estiver doendo muito, me avise. Eu volto na hora.】
Clara ficou olhando aquelas palavras em silêncio.
Seus olhos oscilaram levemente.
Só muito tempo depois respondeu:
【Não precisa.】
Leonardo…
A partir de agora, eu não preciso mais de você.
Quando o ferimento em seu ombro finalmente cicatrizou—
Clara voltou sozinha à antiga residência da família Vasconcelos.
Na época em que Leonardo estava cego, eles viveram ali juntos.
Aquele lugar…
Pertencia apenas aos dois.
Ela pegou uma pá e caminhou até o quintal, sob o pessegueiro ainda viçoso.
Ali, estavam enterrados os desejos que fizeram no aniversário de dezoito anos dele.
Ela cavou.
A caixa de metal já estava enferrujada.
O frasco de vidro, ainda selado, estava coberto de umidade.
Clara abriu.
Retirou os papéis dobrados em formato de estrela.
Desfez o seu primeiro.
Reconheceu a própria letra.
— “Espero que Leonardo volte a enxergar o mundo.”
— “Espero que Leonardo viva em paz e segurança.”
— “Espero poder ficar ao lado dele para sempre.”
Todos os seus desejos…
Eram sobre ele.
Alguns se realizaram.
Outros…
Nunca mais poderiam se concretizar.
Ela abriu o outro papel.
A letra de Leonardo.
— “Espero recuperar a visão.”
— “Espero que Isabela esteja bem.”
Cada palavra—
Era sobre Isabela.
Nunca foi sobre ela.
Então…
Ele nunca a odiou por tê-lo abandonado.
Pelo contrário—
Aceitou tudo de bom grado.
Até mesmo o acidente que sofreu por ela…
Sem arrependimentos.
Clara soltou uma risada amarga.
Rasgou o papel com seus próprios desejos e o jogou fora.
Depois, tirou o colar do pescoço.
Era o presente que Leonardo havia comprado para ela com o dinheiro do seu primeiro negócio, depois de voltar à família.
Na época, ela achou que ele havia gastado demais.
Mas ele apenas a abraçou, beijando-a repetidamente:
— Clarinha… dizem que quanto mais alto se sobe, mais solitário se fica. Mas, se você estiver ao meu lado, eu sempre terei coragem de seguir em frente. Isso é só um colar… tudo o que eu tiver no futuro, inclusive eu… será seu.
Agora—
Clara enterrou o colar.
E tudo o que pertencia ao passado.
Cobriu o buraco.
Virou-se para ir embora.
Mas, ao chegar à porta—
Encontrou Leonardo e Isabela.
Ao vê-la ali, ele demonstrou surpresa.
— Clara? O que você está fazendo aqui?
Ela não respondeu.
Apenas perguntou:
— E você? O que você e ela estão fazendo aqui?
Antes que Leonardo falasse—
Isabela sorriu e respondeu:
— Faz tempo que não escuto o Leonardo tocar piano. Ele disse que o piano está aqui na casa antiga, então voltamos para buscá-lo. Srta. Clara, você conhece bem esse lugar… pode nos guiar?
Sem esperar resposta—
Ela segurou Clara pelo braço e a puxou para dentro da casa.
No instante em que a porta se abriu—
Uma avalanche de memórias invadiu a mente de Clara.
A disposição dos móveis…
Tudo permanecia exatamente igual ao dia em que partiram.
Nada havia mudado.
Talvez por ter vivido ali por tanto tempo, ao retornar àquele lugar, Leonardo também pareceu tocado.
Ele se virou para Clara.
— Clara… você ainda se lembra de quando nós…
— Não lembro.
Ela abaixou a cabeça.
A voz tão baixa que quase não se ouvia.
Leonardo ficou atônito por um momento.
Apontou então para o modelo de Lego no canto.
— Depois de montarmos, não deixamos isso no escritório? Por que está aqui?
Clara nem sequer seguiu o olhar dele.
Respondeu com calma, quase indiferente:
— Você não enxergava. Muitas lembranças… são como ilusões. Confusas.
Assim como ela acreditava que ele a amava.
Mas, na realidade—
O que ele sentia por ela não passava de uma ilusão nascida no desespero.
Como alguém sedento que imagina uma ameixa para aliviar a sede.
Sem poder ver, ele só podia tocar.
Ela era como uma bengala que o guiava.
Por isso parecia importante.
Mas, depois que recuperou a visão—
Quando ele voltou a ser livre, capaz de fazer tudo por conta própria—
Ela se tornou irrelevante.
E ela…
Também acreditava que o apoio mútuo da juventude seria suficiente para atravessar todas as tempestades.
No fim—
Não passou de um reflexo ilusório.
Um sonho bonito, mas vazio.
Ao perceber aquele lampejo de tristeza no rosto dela—
O peito de Leonardo apertou.
Ele quis perguntar o que estava acontecendo.
Mas Clara se virou.
E foi até a varanda.
— O piano está no último quarto do corredor. Vocês podem ir sozinhos.
O som de seus passos se afastando ecoou suavemente.
Clara sentou-se na cadeira de balanço.
Fechou os olhos.
Pouco tempo depois—
O céu, antes ensolarado, escureceu.
A chuva começou a cair.
Ela voltou para a sala.
E então ouviu—
O som de um piano ao longe.
Era a primeira música que ouvira na vida.
Liebesträume
.
Ao escutar—
Parecia ter voltado ao verão de quando tinha dez anos.
Sem perceber, seguiu o som.
Pela janela—
Ela viu Leonardo e Isabela sentados diante do piano.
Tocando juntos.
Quatro mãos.
Mesmo após tantos anos—
A sintonia entre eles permanecia intacta.
Exatamente como antes.
E, depois de sete anos—
O olhar dele ao encará-la ainda estava cheio de amor.
Um amor profundo.
Sem fim.
Então…
Leonardo sempre amou Isabela.
Amou tanto—
Que, mesmo sendo abandonado por sete anos—
Nunca a esqueceu.
Claro.
Ele era o filho predileto do céu.
Ela também.
E Clara…
Era apenas a filha de uma empregada.
Por que insistir em entrar em um mundo que não lhe pertencia?
Por que sonhar em ter alguém que nunca seria seu?
Se pudesse voltar no tempo—
Ela não teria se apaixonado à primeira vista.
Não teria amado em silêncio.
Muito menos teria saído correndo, sem pensar em si mesma, para cuidar dele durante sete anos.
A música foi diminuindo…
Até desaparecer.
Em algum momento—
A mão de Isabela pousou sobre a de Leonardo.
E deslizou lentamente para cima.
Através da janela—
Clara viu Isabela envolver os ombros dele.
E oferecer seus lábios.
— Leonardo… eu sei que você ainda me ama…
Naquele instante—
Clara não aguentou mais.
Virou-se.
E foi embora.
A chuva caía cada vez mais forte.
Encharcando seu corpo por completo.
Sua mente estava vazia.
Por um momento, sentia-se como um capim seco à beira de um precipício.
No outro—
Como um barco solitário virado pelas ondas.
Sem raízes.
Sem rumo.
Flutuando à deriva.
Até mesmo suas lágrimas—
Se misturaram à chuva.
Desaparecendo…
Sem deixar vestígios.
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