"Depois de Tudo, Eu Renasci" Capítulo 4
As palavras pararam abruptamente.
Clara Azevedo avançou com passos instáveis, arrancou o celular das mãos de Leonardo e desligou a ligação.
Ele a encarou, surpreso, sem entender por que ela estava tão alterada.
— O que houve?
Ao ver a expressão confusa dele, Clara percebeu que ele não tinha ouvido tudo o que Dona Helena havia dito.
Ela soltou um suspiro de alívio.
Desviou o olhar e tentou manter a voz calma:
— Nada… só não quero que vocês briguem por minha causa.
Nos últimos tempos, a família Vasconcelos realmente vinha causando conflitos por causa do relacionamento deles, tentando separá-los a todo custo.
E Leonardo, de fato, já havia discutido com eles várias vezes.
Ao ouvir isso, ele não suspeitou de nada.
Apenas mudou de assunto:
— E o resultado dos exames?
— O médico disse que não é nada grave. Já posso ter alta.
Nos dias seguintes, depois de voltarem para casa, Leonardo quase não saiu.
Ficou o tempo todo ao lado de Clara.
Mas ela não era mais a mesma.
Não sorria como antes.
Não falava muito.
Passava a maior parte do tempo sentada em silêncio, perdida em pensamentos.
Leonardo não entendia o motivo.
Tentou abraçá-la, consolá-la—
Mas ela simplesmente se levantou e voltou para o quarto.
— Não estou me sentindo bem… vou descansar um pouco.
Ao vê-la se afastar, ele ficou surpreso.
Achou que ela ainda estivesse incomodada com o episódio do pedido de desculpas.
Então, pediu ao assistente que preparasse uma surpresa.
No dia do aniversário dela—
Leonardo organizou um grande banquete.
Por consideração a ele, praticamente toda a elite do círculo social compareceu.
Na frente dele, todos tratavam Clara com certa educação.
Mas assim que ele se afastava…
As pessoas se reuniam em pequenos grupos e começavam a cochichar sem qualquer disfarce.
— Se não fosse pelo Sr. Vasconcelos, eu jamais pisaria numa festa de aniversário da filha de uma empregada. Que humilhação!
— Nem sei o que ele viu nela. Esse ar de pobreza… chega a incomodar!
— O Sr. Vasconcelos até que é leal… se fosse comigo, já teria dado um dinheiro e mandado embora. Mas casar com ela? Isso sim seria manchar o nome da família!
Apesar de ser a protagonista da festa—
Clara estava sozinha.
Ignorada.
As palavras de desprezo e zombaria vinham de todos os lados.
Ela só sentia um cansaço profundo.
Se não fosse por medo de Leonardo perceber algo estranho…
Ela nem teria vindo.
Sob aquela exclusão deliberada, cada minuto parecia interminável.
Até que, às sete da noite—
O salão de repente ficou agitado.
Todos os convidados viraram-se ao mesmo tempo para a entrada.
As expressões de desdém desapareceram instantaneamente, substituídas por sorrisos bajuladores.
A notícia já havia se espalhado há muito tempo no círculo.
Quem não sabia que Leonardo havia brigado por Isabela dias atrás?
Aquilo só significava uma coisa—
Ele ainda se importava.
— Sr. Vasconcelos, então o senhor saiu agora há pouco para buscar a Srta. Montenegro? Depois de tantos anos, esse sentimento continua mesmo, hein!
— Claro! Eles são namorados de infância… veja só como a Srta. Montenegro combina com o Sr. Vasconcelos. Um casal perfeito!
Entre os comentários—
Clara olhou para Isabela Montenegro, que entrava de braço dado com Leonardo.
E, por um instante, ficou atordoada.
Isabela usava um vestido de alta-costura deslumbrante.
O colar de diamantes brilhava intensamente, realçando ainda mais sua postura elegante.
Seu rosto delicado carregava uma nobreza natural, cultivada em luxo e privilégio.
Mesmo ao lado de Leonardo—
Ela não parecia inferior em nada.
De repente—
Clara se lembrou de um desenho.
Depois que recuperou a visão, Leonardo havia feito um esboço de uma mulher, sem desenhar o rosto.
Na época, ele disse que era apenas um passatempo.
Ela achou bonito.
E não pensou muito sobre isso.
Mas agora…
Ao olhar para Isabela—
Ela finalmente entendeu quem estava naquele desenho.
Não era um amor que recomeçou.
Era um amor que nunca acabou.
Clara abaixou os olhos.
E se virou em silêncio.
Mas foi chamada:
— Srta. Clara, ouvi dizer que hoje é seu aniversário. Eu apareci sem convite… espero que não se importe. Trouxe até um presente!
Enquanto falava, Isabela fez sinal para alguém trazer algo.
Um pequeno cachorro branco foi levado até elas.
— Ele se chama Ali… não é fofo?
Ao ver o cachorro pulando em sua direção—
Clara recuou instintivamente, batendo contra a mesa.
Seu rosto empalideceu.
Os olhos se encheram de medo.
— Por favor… leve ele embora. Eu não gosto de cachorros.
Ao ouvir aquilo, o rosto de Isabela Montenegro escureceu levemente.
— Leonardo… será que a Srta. Clara ainda está chateada comigo por causa da última vez? Nesse caso, acho melhor eu ir embora, não quero atrapalhar vocês dois…
Dizendo isso, ela se virou como se fosse sair.
Leonardo imediatamente a segurou pelo braço e, franzindo a testa, olhou para Clara.
— Ela só teve boas intenções. Clara… você não gosta tanto de animais? Fique com o cachorro.
Diante daquele olhar levemente impaciente, Clara apertou os punhos com força.
Não teve escolha.
Virou-se para o secretário:
— Sr. Zhao, estou de salto alto… não é muito conveniente. Pode segurar o cachorro para mim?
Ao redor, as pessoas voltaram a comentar com sarcasmo, dizendo que ela não sabia reconhecer gentileza, que gostava de fazer jogo de cena.
Leonardo também achou que ela estava, mais uma vez, fazendo questão de constranger Isabela.
Com o rosto fechado, levou Isabela para dentro do salão principal.
O espaço logo se esvaziou.
Restou apenas Clara.
Ela serviu um copo de água e bebeu devagar, tentando acalmar o nervosismo que ainda a dominava.
Antes…
Ela gostava muito de cachorros.
Mas, cinco anos atrás, numa noite de tempestade, houve uma queda de energia.
Leonardo teve uma febre alta.
Ela saiu na chuva para buscar ajuda.
No caminho, foi perseguida por um cão de guarda do vizinho.
O animal a mordeu, arrancando um pedaço da carne de sua perna.
Mesmo assim, suportando a dor, ela conseguiu trazer um médico para garantir que Leonardo estava bem.
Só depois cuidou do próprio ferimento.
Desde então, passou a ter medo de cachorros.
Mas nunca contou isso a ele.
Não queria preocupá-lo.
Mesmo agora, por baixo do vestido, ainda podia sentir o contorno da cicatriz.
As pessoas naquela festa sabiam perfeitamente como seguir o vento.
Ao verem a atitude de Leonardo, passaram a tratar Clara com desprezo aberto.
Durante a celebração, cercaram Isabela no centro, como se fosse ela a aniversariante.
Só depois que Leonardo se acalmou um pouco, chamou Clara para apagar as velas.
Ela caminhou até lá em silêncio.
Estava prestes a fazer um pedido—
Quando Isabela exclamou, surpresa:
— Que coincidência! Srta. Clara, você faz aniversário no mesmo dia que o Ali! Que tal comemorarmos juntos?
Assim que ela disse isso, todos ao redor cobriram a boca para rir.
Clara olhou para ela.
Nos olhos de Isabela, havia provocação.
Seus dedos se cravaram na palma da mão.
Ela respirou fundo, a voz fria:
— Nesse caso… deixe o cachorro apagar as velas. Vocês podem cantar para ele. Eu não vou atrapalhar.
Ao ver que ela realmente ia sair, a veia na testa de Leonardo saltou.
— Clara!
A voz dele ficou grave.
— Hoje é a sua festa. Se você for embora assim, o que vão pensar?
Mas ela não respondeu.
Continuou andando em direção à saída.
Sem aguentar mais, Leonardo a alcançou, segurou seu braço e sussurrou algo ao ouvido dela.
Depois, a empurrou de volta até o bolo.
— Seja razoável. Todas as pessoas aqui são do nosso círculo. Se você sair assim, isso vai chegar à família… e eles vão se opor ainda mais a nós.
Se opor… ao quê?
Eles dois?
Ele já não era casado com Isabela?
Ao redor, começou a soar a música de “Parabéns”.
Clara curvou levemente os lábios.
Mas parecia uma estátua.
Fria.
Sem qualquer alegria.
De repente—
Alguém colocou o cachorro em seus braços.
Seu corpo inteiro se arrepiou.
Antes que a música terminasse, o animal começou a se debater e pulou para frente.
A torre de taças de champanhe foi derrubada—
E caiu diretamente na direção de Clara e Isabela.
Gritos ecoaram pelo salão.
Os copos despencando refletiam nos olhos de Clara como fragmentos desfocados.
Ela viu—
Leonardo puxando Isabela para seus braços e se afastando rapidamente.
E viu—
As taças e o líquido caindo sobre si mesma.
Os cacos de vidro rasgaram seu ombro claro, deixando um corte longo.
O sangue escorreu, tingindo seu vestido branco já encharcado.
Ela caiu no chão, soltando um gemido baixo de dor.
A testa coberta de suor frio.
Leonardo ouviu o som e virou a cabeça.
Ao ver que ela estava ferida, deu um passo para voltar—
Mas, ao lado, Isabela gritou:
— Ah! Leonardo, o Ali me arranhou… será que vou pegar raiva?!
Ele olhou para o pequeno arranhão no tornozelo dela.
Hesitou por um instante.
Então virou-se para o secretário:
— Leve a Clara ao hospital.
Dito isso, saiu apressado com Isabela.
Os convidados também foram embora.
Antes de sair, ainda aproveitaram para pisar mais fundo.
— Ali… A-li… Clara… que nome apropriado, não é? Não parece mesmo um cachorro abandonado?
— Não insulte o Ali! Ele é muito mais adorável… não é como certos cães que só querem se agarrar a gente rica!
Cada palavra—
Clara ouviu perfeitamente.
Ela olhou para si mesma, coberta de vergonha e ferimentos.
O nariz ardeu.
Os olhos se encheram de lágrimas.
A placa de “Feliz Aniversário” balançou e caiu diante dela.
Ela a pegou.
O salão já estava vazio.
Um caos silencioso.
Finalmente—
As lágrimas puderam cair sem contenção.
Seus vinte e três anos…
Terminavam assim.
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