"Traição Entre Três" Capítulo 1
【Por mais que se calcule tudo, o destino resolve com um simples traço.】
No momento em que tive certeza de que Helena Duarte havia me traído, uma postagem viral apareceu na tela do meu celular.
Entrei com calma.
Abri a área de comentários daquele livro chamado
Infidelidade
… e, de forma quase ridícula, acrescentei algumas linhas.
【Até que ponto chega o absurdo?】
【Uma colega tirou uma foto durante uma viagem e postou nos stories. Entre milhares de pessoas, ela e meu melhor amigo apareceram exatamente no mesmo enquadramento.】
【Faltam três dias para o nosso casamento… e eu estou aqui, de madrugada, pegando os dois no flagra.】
Depois de postar, bloqueei a tela — onde ainda brilhava nossa foto de casamento.
Encostado na parede pálida do hotel, fechei os olhos vermelhos de cansaço.
Esperei.
Esperei até que os sons intensos e descontrolados vindos do quarto finalmente cessassem.
Só então dobrei os dedos — ainda com a aliança — e bati na porta, sem expressão alguma.
“Quem é?”
Helena abriu a porta usando uma camisola de alças.
Afastei-a com uma mão e entrei.
O homem lá dentro congelou, sem saber o que fazer.
“Mateus…”
“Mateus Valença, fui eu que seduzi o Lucas! Se você tem algo a dizer, diga a mim! Não ouse tocar nele!”
A garota bonita se lançou nos braços dele sem hesitar.
Como dois amantes trágicos, tentando se fundir um ao outro antes do fim do mundo.
Fiquei ali, parado na penumbra.
Sentindo o cheiro pesado no ar.
Sem gritar.
Sem fazer escândalo.
Apenas gravando aquela cena na memória, para nunca mais esquecer.
Eu disse a mim mesmo:
Não olhe para trás.
Não perdoe.
Abri o e-mail no celular — aquele convite para trabalhar na Europa que estava ali há tempos.
No último dia possível… tremendo, cliquei em “aceitar”.
A partir daquele momento, o amor mais precioso que tive…
e a amizade mais importante da minha vida…
viraram apenas ilusões.
……
Não houve histeria.
O quarto mergulhou num silêncio mortal.
Tirei a aliança do dedo anelar e a coloquei suavemente sobre a mesa.
Minha voz era curta, clara…
e completamente vazia de emoção.
“Devolvo a aliança. O dote também será devolvido.”
“O casamento… vocês decidem. Cancelar ou continuar — tanto faz.”
Depois de falar, virei as costas e saí.
Nem perguntei “por quê”.
Mas, atrás de mim, ouvi o som de algo pesado caindo no chão.
Lucas caiu da cama, cambaleou alguns passos…
e ajoelhou-se aos meus pés, com os punhos cerrados.
“Mateus… me desculpa…”
“Eu sou um lixo… fui eu que forcei a Helena… a pessoa que ela sempre amou foi você.”
“Pode me bater… pode até me matar… mas não finge que não sente nada, por favor…”
Helena rapidamente pegou as roupas no chão, colocou sobre os ombros dele…
e se ajoelhou ao lado dele.
Mas o que transbordava de seus lábios não era culpa.
Era dor.
“Não, Mateus… a culpa é minha.”
“Desde pequenos, o Lucas sempre foi quem mais cuidou de você… fui eu que o seduzi.”
“Se você quiser odiar alguém… que seja a mim.”
Minhas pernas pesavam como chumbo.
Virei-me lentamente.
Olhei para baixo… para as duas pessoas que eu mais amava na vida.
Lembrei.
O primeiro par de tênis da minha vida… foi Lucas quem comprou escondido para mim.
Eu sempre fui fraco, incapaz de revidar quando sofria bullying.
Mas não importava quantas pessoas estivessem do outro lado — ele sempre lutava por mim.
Ele tinha uma câmera preciosa, onde registrava todos os meus momentos importantes:
formatura, aniversários, competições de oratória…
Ele fez tudo isso…
porque eu era seu melhor amigo.
E Helena…
Nosso primeiro beijo — foi ela quem, corada, se levantou na ponta dos pés… e me abraçou com cuidado.
Meu estômago sempre foi sensível.
Ela vivia escondendo lanchinhos na minha mochila.
No bloco de notas do celular, guardava cada uma das minhas preferências e restrições.
Quando fracassei numa entrevista e chorei, bêbado, dizendo que “eu não servia pra nada”…
ela passou a noite inteira acordada, revisando meu currículo palavra por palavra.
Ela fez tudo isso…
porque eu era o herói dela.
Eu realmente acreditava…
que era o cara mais sortudo do mundo.
Mas agora…
As duas pessoas que eu mais amava estavam ajoelhadas diante de mim.
A quem eu deveria culpar?
Eu…
posso culpar alguém?
O som de choro fragmentado enchia o quarto, tornando o ar pesado e gelado.
Helena, discretamente, colocou os dedos sob os joelhos nus de Lucas.
O ruído de atrito contra o chão era mais incômodo do que qualquer palavra.
Dei um sorriso difícil… e estendi a mão para ajudá-lo a se levantar.
“Tudo bem… eu não culpo vocês.”
Lucas levantou a cabeça, incrédulo.
Havia um brilho de esperança em seus olhos… misturado com dúvida.
“Sério… mesmo?”
“Sério.”
“Então… você pode continuar com o casamento, pode? Eu prometo… vou para um lugar onde ninguém possa me encontrar. Nunca mais vou atrapalhar vocês. Vou desaparecer completamente da vida de vocês.”
Sua voz saiu apressada, como se tivesse agarrado a última tábua de salvação.
Ele me empurrou para perto de Helena.
Mas Helena…
a mesma Helena que antes não suportava me ver triste — que perderia o sono só de me ver franzir a testa — agora apenas olhava para ele, atônita.
Ela não me abraçou como no dia em que me pediu em casamento.
Não jurou que me amaria para sempre.
Apenas abaixou a cabeça… e segurou de leve a manga da minha roupa.
“Isso, Mateus… você é a pessoa que eu mais amo. Pelo que vivemos nesses dez anos… você pode me dar mais uma chance?”
O peito de Lucas, ainda marcado por beijos, enrijeceu.
Uma sombra passou por seu rosto.
Percebi o conflito entre os dois… e soltei um suspiro profundo, silencioso.
As pessoas mais importantes da minha vida me traíram…
não seria justo dar a elas uma pequena punição?
Então levantei o canto da boca, num sorriso despreocupado, como se nada importasse.
“Tá, tá… eu já disse que não estou bravo.”
“Vocês dois são incríveis… se conhecem há tanto tempo… perder o controle uma vez é normal.”
“O que eu disse agora há pouco foi brincadeira. Vocês não vão fazer isso de novo, né?”
Falei em tom leve, quase brincando.
Depois me virei sozinho.
Peguei a aliança sobre a mesa…
e a coloquei novamente no dedo anelar.
Mas no instante em que aquele círculo de diamantes brilhou intensamente…
as lágrimas escaparam em silêncio.
Essa aliança…
foi escolhida por Helena e Lucas juntos.
Eu nem queria comprar uma para mim.
Mas os dois insistiram tanto em me agradar… que acabaram comprando a mais cara da loja.
“Dinheiro não é nada! Meu irmão merece o melhor!”
“Dinheiro não é nada! Meu marido merece o anel mais precioso!”
Naquela época…
eu só sabia sorrir, bobo, no meio das provocações deles.
Nunca imaginei…
que aquelas disputas, aparentemente inocentes, também estavam mudando aos poucos.
Talvez…
uma aliança jogada fora ainda possa ser recuperada.
Mas as pessoas…
essas nunca voltam a ser como antes.
……
No voo de volta, eu ainda me sentei, como sempre, entre os dois.
Mas eles não disputavam mais meu ombro.
Não brigavam, não riam.
Apenas olhavam em silêncio — um para a janela, o outro para o corredor.
Quando respondiam às minhas palavras…
evitavam até trocar olhares entre si.
Depois de aterrissar, Helena me acompanhou até em casa.
Sentados no carro, nenhum de nós mencionou o que aconteceu.
Continuamos falando… sobre o casamento dali a três dias.
Mas eu podia sentir.
Sua mente… estava sempre um passo atrasada, dispersa.
Fingi não perceber.
Continuei vendo modelos de vestidos de noiva no celular.
Então, o telefone tocou — urgente.
“Alô? Você é o Mateus Valença? Tem alguém aqui que desmaiou… o contato de emergência dele é você, então eu…”
Antes que a pessoa terminasse de falar, ouvi a voz fraca, forçada, do outro lado.
“Mateus… eu… eu tô bem… volta pra casa.”
“Amanhã… amanhã eu vou com você escolher o terno… você vai ser o noivo mais bonito do mundo…”
A ligação caiu.
O som seco ocupou cada canto do carro.
Helena ouviu tudo, imóvel.
Do começo ao fim, não disse uma palavra.
Mas os dedos sobre seu joelho… batiam sem parar.
No fundo do meu peito, algo já desmoronado continuava afundando…
como poeira que nunca termina de cair.
Segurei a dor sufocante, forcei um sorriso… e inventei uma desculpa ruim.
“Helena… acho que você vai ter que pegar outro carro. Lembrei agora que um colega me chamou pra comer churrasco hoje à noite.”
Os olhos dela brilharam por um instante…
mas ainda perguntou, hesitante:
“Eu posso te acompanhar até lá.”
“Não precisa. Não sou criança. Volta pra casa e descansa. Assim amanhã você pode provar o vestido com calma.”
Pedi ao motorista para parar o carro.
Abri a porta para ela… e a apressei, impaciente.
Ela franziu a testa, parada ali, ainda hesitando.
Mas o desejo de ver Lucas…
acabou vencendo qualquer inquietação.
“Então volta cedo, tá? Não bebe. Não anda sozinho à noite. Quando terminar, me liga. Eu vou estar te esperando em casa.”
“Tá bom.”
Acenei com indiferença…
e fechei a porta sem olhar para trás.
Só quando a figura dela no retrovisor ficou cada vez menor… cada vez mais distante…
De passos apressados… a uma corrida descontrolada sobre os saltos altos…
Foi que eu não consegui mais fingir.
Cobri o rosto com as mãos…
e deixei as lágrimas escorrerem entre os dedos.
A direção para onde Helena corria…
era completamente oposta ao nosso lar.
O caminho que deveria levar à felicidade…
já havia desmoronado por causa da traição.
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