Capítulo 10
A data prevista para o parto era no inverno. Às três da madrugada do dia dezessete de dezembro…
Acordei com uma dor intensa.
— Lucas…
Ele estava dormindo ao meu lado.
Desde aquele dia no fórum… ele se mudou para o Jardim do Rio.
Minha mãe arrumou o quarto de hóspedes para ele.
Meu pai não se opôs.
O que, no caso dele… já era aprovação.
Depois de um tempo… Ele passou a dormir no meu quarto.
Fui eu quem pediu.
O inverno estava frio. E ele era quente.
— O que foi? — ele acordou na hora, já sentado.
— Acho que… está na hora.
O que aconteceu depois… se alguém gravasse… provavelmente ganharia prêmio de comédia do ano.
Lucas Montenegro.
Neurocirurgião.
Mãos firmes o suficiente para operar vasos minúsculos.
Agora:
Vestiu o casaco do avesso.
Não encontrava a chave do carro.
Bateu duas vezes na porta.
Quando me pegou no colo… eu mal conseguia falar de dor.
Mas vi o que não esperava ver:
O queixo dele tremia.
Não era frio.
Era medo.
No caminho até o hospital… ele avançou dois sinais vermelhos.
— Se acalma… — consegui dizer.
— Eu estou calmo.
A voz dele… tremia.
Na porta da sala de parto… eu fui levada para dentro.
Ele ficou do lado de fora.
Minha mãe disse depois… que ele deu mais de quatrocentos passos no corredor.
Ela contou.
E que ele repetia sem parar:
— Prioridade à mãe. Salvem a mãe.
Minha mãe deu um chute nele.
— Cala a boca! Minha filha vai ficar bem!
Meu pai estava sentado.
Em silêncio.
Mas as mãos… não paravam de se mover.
Cinco horas depois…
Duas meninas. Um menino.
Quando as enfermeiras trouxeram os três bebês… todo mundo no corredor se levantou.
Lucas correu.
Olhou para aqueles rostinhos enrugados… E as lágrimas simplesmente caíram.
Sem som.
Ele estendeu a mão… Mas recuou.
Com medo de machucar.
Minha mãe colocou o menor nos braços dele.
— Para de chorar. Segura.
Ele ficou rígido.
Uma mão na cabeça.
Outra nas costas.
Sem respirar direito.
Um homem de quase um metro e noventa… segurando um bebê do tamanho da palma da mão.
Mais nervoso do que numa cirurgia de doze horas.
Quando me trouxeram para fora… ele imediatamente entregou o bebê e veio até mim.
Segurou minha mão.
Encostou a testa na minha.
Não disse nada.
Só segurou.
A mão dele estava quente.
— Por que você está chorando?
— Não estou.
As lágrimas caíam no dorso da minha mão.
Durante o resguardo… Lucas reduziu sua agenda de cirurgias ao mínimo.
Cancelou o que podia.
Repassou o que conseguiu.
No hospital… todos ficaram chocados.
Era a primeira vez que viam ele pedir licença.
Em casa… ele era um desastre.
Trocar fralda: errado.
Fazer mamadeira: sempre na temperatura errada.
Fazer o bebê dormir: funcionava… mas ele dormia antes.
Minha mãe ria todo dia.
— Olha isso! Grande médico e não sabe trocar fralda!
Ele só sorria.
Meu pai, às vezes, ajudava:
— Inclina a mamadeira. Não deixa engasgar.
— Certo, pai.
Meu pai ficou em silêncio.
Foi a primeira vez que Lucas o chamou de pai.
Naquela noite… meu pai serviu chá para ele.
Não disse nada.
Mas… disse tudo.
No dia do primeiro mês dos bebês… nada de festa grande.
Só nós.
No jardim.
Minha mãe cozinhou uma mesa inteira.
Meu pai abriu uma garrafa.
Bebeu dois copos.
Lucas colocou os três carrinhos lado a lado.
Os bebês… dormindo profundamente.
Depois do jantar… fui lavar a louça.
Quando voltei… havia algo no meu travesseiro.
Um frasco.
De remédio.
Vazio.
Lavado.
Dentro… um papel dobrado.
Abri.
A letra dele. Reta. Precisa.
Como prontuário médico.
“**O primeiro frasco apareceu na minha porta em 14 de fevereiro.
O último… no dia em que você foi embora.
Restava um terço.
Foram cinco frascos ao todo.
Cada um… foi você.
Eu não sabia antes.
Agora eu sei.
Desculpa.
Obrigado.
Não vá embora de novo.**”
Fiquei sentada na cama.
Lendo.
Por muito tempo.
Não chorei.
Dobrei o papel.
Coloquei de volta.
Fechei o frasco.
Levei até a sala.
Coloquei na janela.
Ao lado do meu certificado.
E da foto dos três bebês.
Lá fora…
A árvore no jardim estava dando seus primeiros frutos.
Peguei um.
Mordi.
Era doce.
(Fim)