《O Cheque de 60 Milhões e Meu Recomeço》Capítulo 2

— Quanto?

— O suficiente.

Ela ficou em silêncio, digerindo.

— Tá bom. Já que comprou, comprou. No fim de semana eu e seu pai vamos ver.

— Tá bom.

Desliguei.

Abaixei a cabeça e toquei a barriga.

— Meus amores… a mamãe comprou uma casa com jardim pra vocês. Agora vocês vão ter onde tomar sol.

Nos três dias antes da entrega, fiquei hospedada num hotel perto do condomínio.

Nada luxuoso. Só um hotel limpo, confortável.

Mas a cama era grande.

O cobertor era macio.

E não tinha ninguém batendo portas de madrugada… nem olhares dizendo que eu não pertencia àquele lugar.

Foi o sono mais tranquilo que tive em um ano.

No dia seguinte, fui ao shopping.

Comprei roupas de gestante — nada de marca, mas confortáveis e bonitas.

Depois fui a uma loja de produtos para bebês.

Empurrei o carrinho e comecei a colocar tudo.

Mamadeiras. Três.

Cobertores. Três.

Macacões de recém-nascido. Três.

Quando saí, o carrinho parecia uma montanha.

O sol do fim de tarde batia no meu rosto, quente e suave.

Durante um ano na casa dos Montenegro, eu não comprei nada que realmente quisesse.

Não porque não podia.

Mas porque… não tinha vontade.

Agora era diferente.

Eu tinha sessenta milhões.

Três filhos.

Uma casa com jardim.

Não precisava da aprovação de ninguém.

No dia da mudança, deixei a mochila no sofá novo.

Pisei descalça na grama do jardim.

Respirei fundo.

— Meus amores… chegamos em casa.

Ao mesmo tempo, na casa dos Montenegro…

A empregada estava na sala, tremendo, falando com Helena Montenegro, que acabava de voltar do salão.

— Senhora… a Sofia… foi embora.

— Foi embora? — ela tirou os óculos escuros, indiferente — Já devia ter ido. Limpou tudo direito?

— Ela… não levou nada. Roupas, produtos, até o cartão que a senhora deu… tudo ficou. Só levou uma mochila.

Helena parou por um instante.

Entrou no quarto de hóspedes.

O lado direito do armário estava vazio.

Não vazio de mudança.

Vazio… porque nunca teve muita coisa.

O crachá e a chave estavam organizados.

Na mesa, o frasco de remédio — ainda pela metade.

Sem bilhete.

Ela ficou olhando por alguns segundos, sem saber exatamente por quê aquilo incomodava.

— Ingrata.

Fechou o armário e saiu.

À noite, Isabela Rocha apareceu.

Vestido branco de tricô, maquiagem impecável, trazendo uma tigela de sopa de ninho de pássaro.

— Tia, ouvi dizer que a Sofia foi embora?

— Foi. — Helena bufou — E saiu limpinha. Pelo menos teve noção.

— Não fale assim… afinal, ela ficou um ano com o Lucas.

Isabela mexia a colher com delicadeza.

Camila desceu correndo as escadas.

— Isabela, você não precisa defender ela! Meu irmão deu sessenta milhões pra ela!

A colher parou.

Sessenta milhões.

Ela nunca mencionou dinheiro naquele e-mail.

Foi o advogado que executou o acordo?

Não… algo não batia.

Se Lucas não autorizou diretamente…

Então…

O dinheiro foi transferido assim mesmo.

As unhas dela cravaram na palma da mão.

Mas logo ela sorriu, controlando tudo.

Não importava.

Sofia tinha ido embora.

Era isso que importava.

Enquanto isso, em Frankfurt…

No quarto de hotel, Lucas Montenegro abriu o e-mail para revisar artigos.

Seus olhos passaram pela caixa de enviados.

A primeira mensagem.

Enviada três dias antes.

Para: Sofia Alves.

Assunto: Encerramento do acordo.

Ele não tinha enviado aquilo.

Abriu.

Leu.

Sua expressão mudou de confusão… para vazio… e então para algo difícil de descrever.

Pegou o telefone.

— Remarca. O primeiro voo possível. Hoje.

Capítulo 3

Onze horas depois, Lucas Montenegro estava parado à porta do quarto de hóspedes na casa dos Montenegro.

O lado direito do guarda-roupa estava vazio.

O copo de escova de dentes no banheiro tinha desaparecido.

As cortinas estavam perfeitamente alinhadas, como se ninguém jamais tivesse vivido ali.

Na mesa de cabeceira, o frasco de remédio ainda estava lá.

Ele pegou.

Leve demais.

Sacudiu levemente — restavam apenas alguns comprimidos batendo lá dentro.

Virou-se para a empregada.

— Esse remédio… quem comprava?

Ela hesitou.

— Era… a senhorita Sofia. Sempre ia comprar pessoalmente na farmácia.

A mão de Lucas se apertou ao redor do frasco.

— Para onde ela foi?

— Não sei. No dia em que assinou os papéis, foi embora. Só levou uma mochila.

Ele colocou o frasco no bolso e saiu imediatamente.

Direto para o hospital.

O escritório de Isabela Rocha ficava no fim do corredor da cardiologia.

Quando Lucas empurrou a porta, ela estava analisando exames.

Ela levantou a cabeça, surpresa… e sorriu.

— Você voltou? Por que não avisou antes…

— Há três dias, alguém usou meu computador para enviar um e-mail para Sofia.

Não era uma pergunta.

O sorriso dela congelou.

— Não sei do que você está falando.

— O Bruno disse que você esteve no meu escritório duas vezes. O sistema registra acesso. O IP do e-mail pode ser rastreado. Quer que eu verifique?

Silêncio.

Três segundos.

Isabela largou os exames e se encostou na cadeira.

— Fui eu.

Ela se levantou. Seus olhos ficaram vermelhos, a voz tremia.

— Lucas, você já viu como ela é? Uma nutricionista comum, vinda de uma agência matrimonial… ela nem entende o seu mundo! Ficar com ela é simplesmente—

— Me ajudou em quê?

A voz dele não era alta.

Mas cortou tudo.

Ela ficou em silêncio.

— Me ajudou a expulsar minha esposa? A gastar sessenta milhões num divórcio que eu nem sabia que existia?

— Os sessenta milhões não fui eu…

— Eu sei que não. O advogado viu que o e-mail foi enviado da minha conta e seguiu o procedimento do contrato. Mas quem iniciou tudo… foi você.

Ele a encarou.

— Seu nome será retirado do projeto conjunto ainda hoje. O relatório da conferência da próxima semana… terá outra pessoa no seu lugar.

— Lucas!

— A partir de agora, nada do que te diz respeito tem qualquer relação comigo.

Ele se virou e saiu.

A porta se fechou.

Isabela ficou parada, tremendo.

Ela esperou três anos.

Desde a faculdade, residência, até chegar a médica assistente, depois subchefe.

Achava que, se Sofia desaparecesse, tudo voltaria ao normal.

Mas naquela trajetória… nunca houve lugar para ela.

Lucas saiu do hospital e ficou sentado dentro do carro.

Ligou para Sofia.

Celular desligado.

Mandou mensagem.

Sem resposta.

Colocou o telefone sobre o volante e fechou os olhos.

O carro estava silencioso.

Ele se lembrou de uma madrugada do mês passado.

Depois de uma cirurgia, passou pelo quarto de hóspedes.

Havia luz por baixo da porta.

Ele não bateu.

Achou desnecessário.

Agora… aquele quarto estava vazio.

Mesmo que quisesse bater… ninguém atenderia.

O frasco de remédio no bolso pressionava sua perna.

Ele pegou o celular e ligou para Ricardo Teixeira.

— Descubra onde Sofia está morando.

Do outro lado, houve uma breve pausa.

— Não precisa investigar, doutor. A Sra. Sofia comprou uma casa no Jardim do Rio, na zona oeste, há três dias. Pagamento à vista. Eu cuidei da documentação.

Lucas ficou em silêncio.

Sessenta milhões.

Ela usou vinte e oito para comprar uma casa.

Ele… nem sabia que tipo de casa ela gostava.

Um ano.

E ele não sabia nada sobre ela.

Enquanto isso, no Jardim do Rio…

Eu estava descalça no jardim, regando as plantas.

A luz do entardecer era suave.

A água caía sobre as folhas, brilhando.

À tarde, fiz algo que nunca tinha feito na casa dos Montenegro.

Fui a uma loja de móveis.

Escolhi uma cama grande, macia.

Depois, móveis para quarto infantil.

A vendedora disse:

— A senhora pode comprar um primeiro e depois voltar para completar.

— Não precisa depois.

Eu sorri.

— Quero três. Iguais.

Ela me olhou, surpresa.

— Três camas? Quantos filhos a senhora tem?

— Três.

— …Trigêmeos?

— Sim.

A expressão dela era igual à da médica do ultrassom.

Quando paguei, ela praticamente brilhava de felicidade.

Passei a tarde inteira comprando tudo:

Berços, carrinhos, cadeirinhas, esterilizadores…

Tudo em três unidades.

Empurrei o carrinho cheio até sair da loja.

Parecia uma montanha.

Uma senhora passou e olhou duas vezes.

Eu abaixei a cabeça e falei com a barriga:

— Vocês três ainda nem nasceram… e já gastaram mais de quatrocentos mil. Depois vão ter que cuidar bem da mamãe, viu?

Quando voltei para casa, ainda estava regando as plantas…

Meus pais chegaram.

Quatro horas de viagem de ônibus.

Meu pai desceu devagar, com a coluna ruim.

Minha mãe carregava duas sacolas: conservas caseiras, ovos salgados, molho de pimenta.

Ela entrou e ficou parada.

Olhou para a sala.

Para o jardim.

Para a cozinha.

Abriu a boca… e fechou.

— Sofia… quanto custou essa casa?

— Vinte e oito milhões.

— Vinte e oito mil por mês? Tá caro…

— Não é aluguel. Eu comprei. Vinte e oito milhões.

A sacola quase caiu da mão dela.

Meu pai caminhou até o jardim.

Olhou o gramado, o rio… ficou um tempo em silêncio.

Ele não perguntou sobre dinheiro.

Só disse:

— É um bom lugar. As crianças vão ter espaço pra correr.

Minha mãe, depois de se recompor, correu direto para a cozinha.

— O fogão é grande! Cadê a geladeira? Primeiro vou guardar os ovos!

Eu ri.

Ela sempre foi assim.

Não importa o tamanho da casa… a primeira coisa é a geladeira.

Durante o jantar, contei sobre os trigêmeos.

Os hashis da minha mãe caíram.

Meu pai parou no meio do movimento.

Silêncio.

Cinco segundos.

Minha mãe bateu na mesa:

— Meu Deus! A família Alves foi abençoada!

Meu pai me olhou por um longo tempo.

— Seu corpo aguenta?

— Aguenta.

— Falta dinheiro?

— Não.

— Então tá. — ele tocou levemente meu ombro — Você tem a gente.

Meus olhos arderam.

Mais tarde, meu celular tocou.

Número desconhecido.

Da cidade.

Atendi.

Do outro lado… uma voz que eu conhecia muito bem.

Mas que há muito tempo não falava comigo assim.

— Sofia… onde você está?

Era Lucas Montenegro.

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