Capítulo 5 (Final)
Segui com meu pai direto para o hospital para ver o Lucas.
Assim que vi aquele corpinho magro deitado na cama… as lágrimas começaram a cair sem controle.
O médico me tranquilizou:
—
Vocês chegaram a tempo. A cirurgia foi um sucesso.
—
O braço foi totalmente reconectado. Com os cuidados adequados, não haverá nenhuma sequela no futuro.
—
Também usamos os melhores analgésicos. A criança não vai sofrer.
Só então consegui respirar aliviada.
Logo, uma funcionária trouxe um carrinho de comida.
Pratos lindamente preparados, com uma variedade que enchia os olhos.
Mesmo depois de tantos anos… meu pai ainda lembrava que eu gostava de comida mais doce.
Costelinha agridoce, peixe ao estilo crocante… e uma pilha de doces de arroz.
Lucas olhava fixamente para a comida, com a boca cheia de saliva.
Não consegui evitar um sorriso.
—
Mamãe… posso comer um pouquinho? Só um pouquinho…
Levantei a cabeceira da cama, arrumei a bandeja e coloquei todos aqueles pratos diante dele.
—
Lucas, a partir de agora… você pode comer o quanto quiser.
Ele arregalou os olhos.
—
Sério?
—
Mas isso não deve ser muito caro?
—
A mamãe trabalha muito… eu não quero que você se canse…
—
Eu só quero provar um pouquinho…
Meu nariz ardeu.
Todos esses anos… meu filho só conheceu dificuldades.
Mesmo numa época difícil, a maioria das crianças ainda tinha algumas moedas no bolso.
Mas Lucas não tinha nada.
Nem brinquedos.
Nem doces.
Só podia ficar à beira da rua, olhando os outros comendo… engolindo em seco.
E foi por isso que ele sempre era intimidado.
Até o obrigavam a latir como um cachorro.
Respirei fundo, me levantei e puxei meu pai para dentro do quarto.
Coloquei a mão dele sobre a de Lucas.
—
Lucas, esse é o seu avô.
—
Você não viu porque estava inconsciente… foi ele quem mandou o helicóptero te buscar.
—
Seu avô é muito poderoso.
—
A partir de agora, nunca mais vamos sofrer.
—
Você vai morar em uma casa grande, andar de carro… ter uma sala cheia de brinquedos…
—
e até pode ter um cachorrinho.
Lucas me olhou, confuso.
Esfregou os olhos… depois se beliscou com força.
—
Ai! Dói… então não é um sonho…
—
Eu também tenho um avô!
Ele se jogou nos braços do avô, chorando.
Como se finalmente estivesse liberando todas as dores acumuladas desses anos.
Meu pai acariciou sua cabeça, e depois me lançou um olhar irritado:
—
Você quis sofrer, tudo bem… mas fez meu neto sofrer junto?!
Lucas de repente se lembrou de algo:
—
Mamãe… e o papai?
O ar ficou pesado por um instante.
Fiquei em silêncio por alguns segundos… e então falei suavemente:
—
Lucas… na verdade… aquele homem não é seu pai.
—
Eu menti pra você esse tempo todo.
—
Seu pai… morreu há muitos anos.
Ele piscou, confuso:
—
Morreu? Quer dizer que… ele morreu mesmo?
—
Como ele morreu?
…essa criança realmente não deixa passar nada.
Suspirei levemente.
—
Há muitos anos, houve uma grande enchente aqui na cidade.
—
Seu pai morreu tentando salvar outras pessoas.
—
Mas não tem problema…
—
você ainda tem a mamãe e o vovô sempre ao seu lado.
Ele assentiu, ainda sem entender completamente.
Mas logo se distraiu com a comida à sua frente.
Para ele… a ausência de um pai já era algo normal.
E, dessa vez, ele se adaptou rápido.
Mesmo na nova escola, algumas crianças ainda riam dele por não ter pai.
Mas Lucas já não reagia como antes.
Não chorava escondido.
Nem brigava impulsivamente.
Ele apenas levantava o queixo e dizia com orgulho:
—
Pra que eu preciso de pai?
—
Meu avô me deu um carrinho importado, chocolate, biscoito…
—
E ainda tenho motorista pra me levar pra escola.
—
E vocês? Têm isso?
Crianças são simples.
Logo se aproximaram dele, querendo ser seus amigos.
E Lucas… foi se tornando cada vez mais alegre.
Eu finalmente respirei aliviada.
…
Enquanto isso, Rafael e Bianca viviam em completo inferno.
Depois de meio mês se recuperando, Rafael voltou mancando para a base de Nanshan.
Assim que entrou… já estava irritado com tudo e todos.
—
O que estão olhando? Voltem a treinar!
—
Fui bonzinho demais com vocês, foi isso?!
—
Cadê minhas coisas? Sumiram todas?!
—
Então agora tem ladrão aqui?!
—
Todos em formação!
Um recruta novo riu:
—
Nem precisa mandar formar…
—
Você não viu o cartaz enorme na entrada?
—
Tá tudo escrito lá, bem claro.
—
Como você ainda tem coragem de agir como se nada tivesse acontecido?
Um pressentimento ruim surgiu no coração dele.
Antes que pudesse perguntar—
um soldado se aproximou:
—
Camarada Rafael, o superior quer vê-lo imediatamente.
Ele entrou na sala, inquieto.
Assim que cruzou a porta— uma pilha de documentos foi jogada em seu rosto.
—
Você está destituído do cargo.
—
Arrume suas coisas e desapareça.
Ele pegou os papéis.
Cada linha… acusava sua conduta moral.
Ele abriu a boca para se defender— mas não conseguiu dizer nada.
…
—
Senhorita, aquele homem chamado Rafael está ajoelhado na frente da mansão há o dia inteiro…
—
Diz que quer te ver… devemos…?
Eu estava deitada no sofá, relaxada, descascando uma uva.
Sem nem levantar os olhos:
—
Expulsem.
—
Sim, senhora.
Pouco depois, gritos desesperados ecoaram do lado de fora.
Depois de apanhar dos seguranças, Rafael fugiu em estado miserável.
Antes de ir embora, ainda gritou:
—
Camila, me espera!
—
Eu vou provar que te amo de verdade!
Achei que ele ainda tentaria algo.
Mas depois vi nas notícias—
ele tentou levar Bianca e o filho para se desculpar comigo…
Mas, diante da recusa deles—
ele os matou.
Vizinhos comentavam chocados:
—
Que tipo de ódio é esse… até uma criança de seis anos ele matou…
—
Eu ouvi o menino chamando ele de pai… implorando pra ele parar…
—
Impossível ser filho dele… ninguém faria isso com o próprio filho…
—
Quando a polícia chegou, ele ainda ria… dizendo que a Camila iria perdoá-lo…
Franzi a testa.
Esse homem ainda conseguia me causar problemas.
Com o tempo, isso só viraria mais fofoca.
Mais cedo ou mais tarde… acabariam envolvendo eu e Lucas de novo.
Por coincidência, Lucas tinha comentado que queria conhecer a Europa.
Então decidi—
pedi ao meu pai que cuidasse da imigração e levei Lucas para uma pequena cidade no sul da França, cercada por montanhas e mar.
Um novo começo.
Deixando todo o passado… ser levado pelo vento.
Porque, a partir de agora—
cada dia da nossa vida será o melhor dia possível.
FIM