Capítulo 2
O clima no quarto, que havia acabado de se acalmar, voltou a ficar tenso em um instante.
Soltei uma risada irônica e me virei, encarando Rafael, cujos olhos estavam cheios de fúria.
— A Sofia ainda está estudando. Ela já é sensível por natureza… você quer destruir a vida dela com o que disse agora?!
Ele estava visivelmente irritado. Mesmo com o corpo ainda debilitado pelo acidente, respirava com dificuldade, mas ainda assim gritava:
— Você não viu que ela estava quase chorando?!
— Como você pode continuar sendo tão cruel?!
A família Carvalho sempre foi complicada. Anos atrás, lutei ferozmente contra o filho ilegítimo do meu pai — uma disputa que quase nos levou à morte.
Foi Rafael quem esteve ao meu lado durante todo esse tempo, me ajudando a recuperar tudo o que era meu por direito.
Naquela época, eu ainda era jovem, ingênua em relação ao amor, carregando sonhos de menina.
Eu sempre desejei alguém que conhecesse todas as minhas sombras… e ainda assim me amasse como no início.
Lembro de ter perguntado a Rafael, um dia, se ele me achava uma mulher manipuladora e cruel.
Ele riu e respondeu:
— Nossa Lívia é inteligente, isso sim. E, além do mais, eu estou sempre ao seu lado, não estou?
Foi com essa promessa — de estar ao meu lado — que atravessamos sete anos de casamento.
Sete anos… e, por causa da minha saúde frágil, nunca conseguimos ter um filho.
Sabendo o quanto eu desejava ser mãe, foi ele quem sugeriu patrocinarmos um estudante.
E foi assim que Sofia entrou em nossas vidas.
No papel, era uma boa ação do casal.
Mas, ao longo dos anos, fui eu quem realmente cuidou dela.
O que eu nunca imaginei… era que, ao vir para a universidade nesta cidade, ela acabaria subindo na cama do meu marido.
— Senhora… me desculpa!
De repente, Sofia se ajoelhou diante de mim, interrompendo meus pensamentos.
— Fui eu quem agiu por impulso… briguei com minhas colegas de quarto… não deveria ter ligado para o senhor vir me buscar…
— Se eu não tivesse feito isso, ele não teria sofrido o acidente…
— A culpa é toda minha… fui eu quem ultrapassou os limites… achei que… que tinha um lar para onde voltar…
Enquanto falava, ela começou a dar tapas no próprio rosto — um, dois…
Rafael, deitado na cama, ficou imediatamente angustiado ao vê-la.
— Lívia! Já chega! Sofia ainda vai se apresentar daqui a alguns dias! Ajude-a a levantar!
Ele tentou se levantar da cama, nervoso.
Sofia correu até ele para apoiá-lo, chorando de forma comovente:
— Senhor… me desculpa…
As mãos dos dois se entrelaçaram.
Nos olhos dele… parecia haver lágrimas.
— Não chore, Sofia…
Mas, quando voltou a olhar para mim, toda aquela ternura desapareceu — substituída por puro desprezo.
— O acidente não tem nada a ver com ela. Em vez de lidar com as consequências, você vem aqui implicar com uma garota inocente?!
— Você não tem a menor visão do todo. Pequena, mesquinha!
Eu assisti às gravações do acidente.
Naquele momento, Sofia estava no banco do passageiro, chorando, puxando a mão de Rafael em direção ao próprio peito, dizendo:
— Senhor… meu coração dói…
Quando o policial viu o vídeo comigo, ficou tão constrangido que coçou a cabeça e murmurou algo como:
“Isso aqui parece cena de novela… aquelas garotas manipuladoras ganharam vida real.”
Então me perguntei…
O que Rafael queria que eu fizesse com aquilo?
Fingir que não vi? Fazer papel de idiota?
Soltei um riso frio:
— Claro… ninguém tem tanta “grandeza” quanto o seu anjinho.
Abri a porta e, ao sair, chutei a marmita que Sofia havia deixado cair no chão.
Antes que a porta se fechasse completamente, ainda ouvi o grito furioso de Rafael:
— Lívia!
Assim que deixei o hospital, recebi um áudio enviado por Sofia.
Na gravação, a voz grave de Rafael soava suave:
— Seu aniversário está chegando, Sofia… que tal eu te dar uma casa de presente? Assim você terá um lar só seu.
— Posso escolher? — ela perguntou, tímida.
Rafael riu baixinho:
— Claro. Qualquer uma que você quiser.
— Eu gosto daquela casa na zona oeste… foi lá que vi o senhor pela primeira vez.
Houve um breve silêncio.
Logo depois… vieram respirações ofegantes.
E o gemido suave e ambíguo de uma mulher.
Desliguei o celular de imediato.
Provavelmente, Rafael estava tão apaixonado por Sofia… que esqueceu que, na zona oeste, ainda existia alguém como eu.
Aquela casa…
Foi a primeira que tivemos juntos.
Também era o lugar onde vivíamos até hoje.
Mesmo depois de assumir o controle da família Carvalho e comprar inúmeras propriedades, nunca quis sair dali.
Uma vez, Rafael perguntou o motivo.
Eu respondi:
— Porque ali estão nossas memórias.
Naquele momento, seus olhos ficaram marejados.
Ele jurou que cuidaria de mim para sempre.
E agora…
Outra mulher desejava aquela casa.
E ele só se lembrava do momento em que conheceu Sofia ali.
— Senhora Lívia… — minha assistente falou com cautela — o senhor talvez esteja assim por causa da amnésia…
Levantei a mão, interrompendo-a.
Isso era… realmente interessante.
Rafael se lembrava de tudo.
Menos de me amar.