Capítulo 2
Ricardo sempre foi um homem de desejos intensos na intimidade.
Durante o dia, disciplinado e contido. À noite, porém, sua necessidade era evidente.
Nos últimos anos, a pressão sobre ele havia aumentado drasticamente. Cada palavra e cada decisão precisavam ser calculadas com extremo cuidado, sem deixar nenhuma brecha. Aos poucos, ele foi se fechando cada vez mais em si mesmo.
Somente nos momentos de intimidade, quando ele respirava quente junto ao meu ouvido, tomado pelo desejo, eu conseguia reencontrar aquele jovem que um dia corou ao olhar para mim.
Nós nos conhecemos na pós-graduação. Foi ele quem me perseguiu primeiro.
Aquele rapaz frio e arrogante olhava apenas para mim com intensidade, a voz tremendo levemente quando falava comigo. Não demorou para que eu me rendesse.
Mais tarde, fiquei na universidade como professora de psicologia. Ele começou como advogado assalariado e, passo a passo, tornou-se sócio do escritório, transformando-se em um dos advogados de divórcio mais famosos do país, ganhando milhões por ano.
Em termos de personalidade, tínhamos muito em comum:
emocionalmente estáveis, racionais, pragmáticos, objetivos e exigentes com a qualidade de vida.
Eu tinha um trabalho respeitável e estável, capaz de equilibrar carreira, casa e filho. Ele tinha uma carreira brilhante e ascendente em sua área.
Casados há oito anos, sempre fomos educados e respeitosos um com o outro, construindo nossa vida lado a lado. Morávamos em um luxuoso apartamento avaliado em milhões e tínhamos um filho prodígio que nunca nos dava preocupações.
Podia-se dizer que éramos o tipo de família que todos invejavam.
Mas há cerca de meio ano, algo começou a mudar.
Ricardo sempre teve o hábito de correr à noite.
Antes, ele saía às oito e voltava às nove. Depois do banho, passava meia hora com a família.
Sem falhar um único dia.
Mas, de repente, há seis meses, ele começou a sair às sete e voltar apenas às dez. Quando chegava em casa, parecia exausto. Tomava banho e ia direto para a cama.
O tempo em família simplesmente desapareceu.
Perguntei por que suas corridas estavam durando tanto.
Ele apenas pressionou os lábios e respondeu com indiferença:
— O caso em que estou trabalhando está complicado. Ficar mais tempo fora ajuda a clarear a mente.
Às vezes, o trabalho intelectual cansa mais que o físico.
Eu compreendi.
Depois disso, ele também pareceu perder completamente o interesse por sexo.
Achei que fosse consequência do estresse.
Temendo ferir seu orgulho, nunca toquei no assunto, mas no fundo fiquei preocupada com sua saúde.
Por isso, quando ele se machucou na queda durante a escalada e precisou ser hospitalizado, insisti para que tirasse um tempo do trabalho e se recuperasse bem. Também pedi aos médicos que fizessem um check-up completo.
Mas agora parecia que a realidade não era nada daquilo que eu imaginava…
Deitei novamente na cama.
No escuro, abri os olhos e fiquei olhando para o teto.
As palavras que ele havia dito pouco antes me pareciam estranhas.
E a expressão em seu rosto parecia ainda mais irreal.
Tanto que, mesmo tendo sofrido dois golpes devastadores no mesmo dia, uma curiosidade intensa acabou suprimindo a dor e a raiva que deveriam ter surgido.
Eu estava realmente curiosa.
Que tipo de mulher estava do outro lado daquela ligação?
Que tipo de pessoa havia feito Ricardo — um homem que já havia treinado sua frieza e racionalidade ao extremo — tornar-se daquele jeito?
Eu sempre fui uma pessoa direta.
Na noite seguinte, coloquei um comprimido para dormir no copo de leite dele.