No dia em que recebi o diagnóstico do meu marido, ele instalou uma câmera no quarto principal.
Naquela mesma noite, eu o ouvi jurar ao telefone:
— Eu não vou mais tocar nela. Já te mandei a senha e o login da conta. Você pode entrar a qualquer momento para verificar.
— Eu decidi… me manter fiel por amor.
Observando seu rosto inflamado, tomado por uma estranha excitação, eu silenciosamente coloquei o laudo médico dentro da trituradora de papel.
Manter-se fiel por amor…
Muito bem.
Então que ele se mantenha fiel por toda a vida.
Capítulo 1
Quando a palavra “ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica)” apareceu no diagnóstico de Ricardo Andrade, minhas pernas quase cederam.
Três meses antes, Ricardo havia caído durante uma escalada e se machucado. Durante sua internação, pedi especialmente aos médicos que realizassem um check-up completo. Eu queria apenas tranquilidade.
Nunca imaginei receber um resultado como aquele.
— A ELA ainda não tem cura. Só podemos usar medicamentos para retardar o avanço da doença, mas o desfecho final é inevitável.
O médico me olhou com uma expressão cheia de compaixão.
Ricardo tinha pouco mais de trinta anos.
Bonito, elegante, no auge da vida, com uma carreira brilhante.
Como um dos advogados de divórcio mais famosos do país, era conhecido por sua mente afiada e frieza racional — um verdadeiro elite entre os profissionais. Na vida privada, levava uma rotina simples e disciplinada: academia, corrida, escaladas. Era extremamente exigente com a qualidade de vida.
Pensar que um homem assim, no futuro, se tornaria um paciente incapaz de cuidar de si mesmo…
Era algo que eu simplesmente não conseguia imaginar.
Sentei-me à beira da rua, observando o fluxo incessante de pessoas passando.
Depois de muito tempo, levantei lentamente.
Eu já havia tomado minha decisão.
Somos marido e mulher. Devemos avançar ou recuar juntos.
Não importa no que ele se transforme no futuro, eu e nosso filho iremos enfrentá-lo ao lado dele.
Quando voltei para casa, já era noite.
Nosso filho Lucas estava tranquilamente em seu quarto jogando go. Aos sete anos ele já havia alcançado o quinto dan, e até fora entrevistado por um programa de televisão como um “gênio prodígio”.
— Já jantou? — perguntei com suavidade, ajustando minhas emoções.
— Já. A tia fez sopa de costela com raiz de lótus hoje.
Ele não levantou os olhos, completamente concentrado no tabuleiro.
— E o papai?
— Saiu para correr.
Lucas sempre foi um menino quieto, de poucas palavras.
Igual a nós dois.
Duas horas depois, eu estava encostada na cama, hesitando se deveria contar a Ricardo sobre o diagnóstico, quando ele voltou.
Vestia um conjunto esportivo preto. Elegante, imponente, decidido.
Imediatamente fiquei preocupada.
— Lá fora está fazendo poucos graus. Por que você saiu com tão pouca roupa?
Entre as recomendações que o médico havia mencionado naquele dia, havia uma em especial: pacientes com ELA produzem menos calor corporal devido à atrofia muscular, por isso não devem passar frio, pois isso pode acelerar o avanço da doença.
Ricardo permaneceu inexpressivo.
— Quem corre sempre se veste assim.
Ele abriu uma caixa que trazia nas mãos e tirou um pequeno aparelho.
Uma câmera.
Colocou-a sobre o armário em frente à cama e começou a ajustá-la.
Apontada diretamente para a cama.
Franzi a testa, confusa.
— Por que instalar uma câmera de repente?
— Houve alguns roubos por perto. Ter monitoramento é mais seguro.
— Você não tem medo de vazamento de privacidade?
Perguntei com cautela.
Afinal, Ricardo sempre foi uma pessoa extremamente cuidadosa com sua privacidade.
Ele me lançou um olhar rápido e soltou um leve riso de desprezo.
— Privacidade? Quem teria interesse em observar a sua?
Vários sentimentos se misturaram dentro de mim, mas não tive vontade de discutir.
Na hora de dormir, ele se deitou de costas para mim, bem distante, como se estivesse exausto demais para qualquer conversa.
Suspirei silenciosamente.
Ele acabara de encerrar um caso de divórcio de celebridades que havia causado enorme repercussão. A pressão devia ter sido enorme.
Deixemos que ele descanse um pouco.
No meio da noite, inquieta, acordei de repente.
O lado da cama estava vazio.
Ricardo não estava lá.
Meu coração apertou.
Levantei-me para procurá-lo.
Na varanda, ele vestia apenas um pijama fino e falava ao telefone sob o vento frio da noite.
Peguei um casaco e caminhei em sua direção.
— Eu não vou mais tocar nela…
Sua voz baixa chegou até mim.
Meus passos congelaram.
— Já te mandei a senha e a conta. Você pode entrar quando quiser para verificar.
— Eu decidi… me manter fiel por amor.
Através da porta de vidro, fiquei parada observando Ricardo.
Em seu rosto normalmente frio e indiferente, uma emoção intensa transbordava.
Ao ver sua expressão ardente, quase ruborizada de excitação, comecei lentamente a compreender a lógica por trás de suas palavras.
Naquele instante…
Tive a estranha sensação de que aquele homem diante de mim
era um completo desconhecido.