Mandei a mensagem e capotei.
No dia seguinte, acordei morrendo. Passei a mão na testa: tava pegando fogo. Nariz entupido. Gripe, provavelmente.
Peguei o celular, por hábito.
Quando abri a tela, tomei um susto: dezenas de ligações perdidas do Leonardo Montenegro e um monte de mensagens no WhatsApp.
Entrei em pânico.
Nem li as mensagens, liguei de volta na hora.
Massageei as têmporas, tentando fazer minha voz rouca soar profissional:
— Chefe, ontem eu tava bêbada e não consegui atender.
Achei que ele fosse me zoar, como sempre: "Ainda tem tempo pra beber? Vem trabalhar logo!". Mas não.
Hoje ele tava estranho:
— Eu... eu sei que você tava bebendo.
— Só tava perguntando.
— Como você tá agora? Sua voz parece estranha. Gripe?
Fiquei surpresa. O herdeiro da família mais rica do Brasil, que mal fala comigo além do trabalho, hoje perguntando da minha saúde. ? algo errado?
— Obrigada pela preocupação, chefe. Tô bem, sim. É que depois de tanto tempo trabalhando sem parar, quando relaxei... — espirrei alto — Parece que peguei uma gripe mesmo.
— Toma remédio direito. Vou mandar meu médico particular aí pra te atender. — ele disse — Se hoje à noite...
A voz dele tava super estranha, parecia até sem graça.
Ele hesitou e completou:
— Se eu conseguir voltar pra São Paulo hoje, vou te encontrar.
Eu:
— ?
— Me encontrar pra quê? Chefe, sem necessidade. É só uma gripe. Não precisa vir me visitar. Se puder me dar mais uns dias de folga, já tá ótimo...
Do outro lado da linha, o Leonardo Montenegro pareceu falar meio rangendo os dentes:
— Isabella Duarte... você não sabe por que eu quero te encontrar?
Calei a boca. Pensei rápido se tinha algum documento esquecido no carro ou em casa.
A voz dele ficou firme:
— Toma remédio direito. Não quero que me passe essa gripe.
Eu:
— ?
Já fiquei doente antes. Minha mesa fica do lado de fora da sala dele. Quando isso acontece, ele geralmente me dá folga. Às vezes, quando tenho que entregar algo urgente e vou trabalhar doente, vou de máscara. Ele também vai de máscara e fica a um quilômetro de distância.
Como eu ia passar pra ele?
Capitalista safado, sempre desprezando o trabalhador.
Pensei, com raiva, lá no fundo.
Depois disso, ele ficou um tempão enrolado, sem falar nada e sem desligar.
Eu, mera funcionária, não podia desligar na cara do chefe.
Fiquei esperando.
Depois de uns cinco minutos, com dó dos meus custos do telefone, arrisquei:
— Chefe, tem mais alguma coisa?
Finalmente ele falou, rápido e baixo:
— Se cuida bem, fofinha, tá bom? Espera eu voltar.
E desligou na hora.
Fiquei tonta, demorei a processar. Quando caiu a ficha, explodi.
— fofinha?!
Ele tava falando comigo ou com a cachorra dele, a Mel?
Tudo isso sem entender, achando que ele tinha pirado de vez, resolvi olhar as mensagens no WhatsApp.
Olhei.
Quase joguei o celular no chão...
Ontem, com a cara no copo, nem lembrava o que tinha mandado pra ele.
O que eu queria era: "Chefe, tô bêbada, com dor de cabeça. Amanhã, posso tirar folga?".
Na tela do celular, o que aparecia era:
Eu: 【Amor, tô bêbada, com dor de cabeça. Amanhã, posso te dar um beijo?】
O contato "Chefe Sem Coração" tinha apagado duas mensagens.
E respondido: 【Ok.】
Meu arrependimento é total e extremo.